Wilmar Klein
Aquela vez que morri
Isso foi há uns sete, oito anos, num período em que eu estava secando duas garrafas de vodca por dia. Como consequência (e põe consequência nisso), não restou-me outra alternativa senão internar-me num hospital psiquiátrico. Não que estivesse, na ocasião, realmente interessado em parar de beber; apenas não aguentava mais beber, e, se insistisse, teria excelentes chances de ‘‘ir pra fita’’. Portanto, não insisti.
Fiquei mais ou menos um mês no hospital, que, por ser pago, oferecia algumas ‘‘regalias’’ como, por exemplo, boa alimentação e suficiente tempo livre para eu me entediar. Felizmente, abasteci-me de livros e jornais - e foi num destes que li, certa manhã, sobre a morte de um jornalista cujo primeiro nome era o mesmo que o meu e, para ampliar a coincidência, trabalhava no jornal em que, na época, eu atuava como ghost-writer.
Pois bem, a notícia foi quanto bastou para que um grupo de punks, darks e membros de outras tribos menos identificáveis que eu conhecia acreditasse que eu tinha morrido; e isso porque, para aquele pessoal - que frequentava o mesmo bar onde eu ‘‘batia ponto’’- nunca precisei dar mais do que o meu primeiro nome e informar qual a minha profissão e o jornal que publicava ‘‘meus’’ textos para satisfazer-lhe a curiosidade. O fato é que, mesmo tendo quase o dobro da idade deles e não adotando o seu visual, esses garotos de 18, 20 anos, por aí, passaram a considerar-me como um deles - provavelmente por causa de algumas idéias malcomportadas que ainda cultivo e da minha inerradicável repulsa a todos as formas de hipocrisia. E então resolveram prestar-me a última homenagem (ou melhor, a penúltima, já que depois encheram a cara em minha memória): iriam, pois, ao meu enterro - só não sabiam como deviam ir. Reuniram-se e prevaleceu o argumento de que, se eu gostava deles do jeito que eram, se eu divulgava e prestigiava os shows de suas bandas de garagem, então deviam ir do jeito que eu os conhecera. E foi assim que um grupo de punks, góticos e outros tipos estranhos invadiu o cemitério e o funeral de um jornalista sério e respeitável. Não bastasse isso, soube que alguns deles conversaram com parentes do falecido, apresentando-lhes desajeitadamente os pêsames e dizendo-lhes o quanto ‘‘ele’’ era liberal e estimado no underground curitibano. Como em nenhum momento o caixão foi aberto - ou quem sabe não conseguiram chegar bastante perto - deram-me, após a cerimônia, como morto e enterrado.
E continuei assim até que, duas semanas depois, saí do hospital e, na mesma noite - uma noite de ventania, na qual eu me vestira todo de preto - fui beber no bar frequentado pelos sobrecitados punks, darks, etc. (Há sete, oito anos, eu mesmo me achava um alcoólatra irrecuperável, e demorou até conseguir mudar de idéia e ficar sóbrio por um período maior do que um mês.) E, à medida que fui me aproximando da porta do bar, notei que aquele pessoal recuava, com cara de pavor. Aproximei-me então de uma garota (justamente a que havia espalhado a notícia do meu falecimento e sugerido o comparecimento ao meu enterro), e pela primeira vez vi uma pessoa ficar petrificada.
Foi quando ouvi alguém dizer ‘‘Ô cara, a gente pensou que você tinha morrido’’ e ‘‘caiu a ficha’’, ou seja, liguei os fatos e entendi todo aquele espanto, que, assim que esclareci o engano, foi substituído por alguns dos mais calorosos abraços que já recebi.
Que eu me lembre, foi a última vez que morri.

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