Agora em maio, a editora José Olympio lança um livro, ‘‘Safra Macabra’’, reunindo os nove contos que, sob o pseudônimo de King Shelter, a escritora, ativista política e musa dos modernistas Patrícia Galvão, a Pagu, produziu para a revista ‘‘Detective’’, dirigida por Nelson Rodrigues. Não lembro de King Shelter (até porque suas histórias foram publicadas em 1944, onze anos antes de eu nascer), mas lembro da ‘‘Detective’’ e também da sua concorrente, a ‘‘X-9’’, as quais conheci na minha infância e foram os primeiros exemplos de pulp fiction a que tive acesso. Ambas publicavam contos policiais (e, eventualmente, de terror, ou - como no caso da ‘‘Detective’’- até mesmo de faroeste). Praxe nas revistas de pulp fiction (aqui, nos EUA - onde surgiram - ou em qualquer outro país que as tenha publicado), o material, em sua quase totalidade, era tão vagabundo quanto o papel em que era impresso, mas, no meio de tanta porcaria, às vezes era possível encontrar um conto escrito por Agatha Christie, Dashiell Hammett ou Raymond Chandler.
Vale lembrar que, nos EUA, além de Hammett e Chandler - dois mestres indiscutíveis da narrativa policial - outros escritores que depois se tornariam famosos e respeitados, como Ray Bradbury, Robert Bloch (o autor de ‘‘Psicose’’) e H.P. Lovecraft, também produziram pulp fiction.
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Pois bem... este assunto me faz recordar do tempo em que eu mesmo ‘‘descolava’’ uns trocados escrevendo sob pseudônimo contos eróticos para revistas ordinárias.
Não que esse tipo de literatura me atraísse (muito pelo contrário), porém, como na época eu trabalhava como revisor numa editora que publicava essas revistas - refiro-me à extinta Grafipar - tinha garantia de ser publicado caso a produzisse. E foi o que fiz, usando vários pseudônimos (não consigo lembrar, hoje em dia, de nenhum deles). O mais curioso é que era incapaz de ‘‘bolar’’ uma história com começo, meio e fim -e, aliás, continuo sendo. Quanto ao teor erótico desses contos, os quais nunca me interessei em conservar, era tão débil (sob certos aspectos, tão pudico) que não consigo imaginar quem pudesse se excitar com eles. Para piorar as coisas, eu misturava às ‘‘histórias’’ reflexões (pseudo-) filosóficas, (pseudo-) misticismo e outros elementos estranhos a esse tipo de ficção. Para o leitor, o resultado devia ser decepcionante e anafrodisíaco.
Eu, no entanto, me divertia muito e desfrutava da sensação de liberdade que somente um escritor que não se leva a sério, escrevendo como bem entende para um público que igualmente não o levará a sério nem o entenderá, pode experimentar.
P.S.: Não se pense que desprezo a minha experiência (ao longo de seis anos, mais ou menos) com as revistinhas da Grafipar (que o seu diretor, o Faruk El-Khatib, chamava, jocosamente, de ‘‘erótico-educativas’’): foi através delas que aprendi como uma revista é editada e os rudimentos de fotolitagem e impressão. Mais ainda: a coisa toda valeu, para mim, como escola, pois comigo, naquela época, trabalhou gente da melhor qualidade, como, por exemplo, os saudosos Paulo Leminski (que, entre outras coisas, produzia roteiros para histórias em quadrinhos de ‘‘sacanagem’’) e Aramis Millarch (Aramis, o mais consistente crítico de música e cinema que Curitiba já teve, comentava discos apropriados para se ouvir no motel), Wilson Bueno (que depois se tornaria editor do ‘‘Nicolau’’, poeta e escritor reconhecido e colaborador desta Folha), Nelson Faria de Barros (não conto qual era o pseudônimo que o Nelson usava, mas não resisto à tentação de dizer que a ‘‘personagem’’ que ele criou era talvez a maior destinatária de cartas de todo o Paraná), Cláudio Seto (veterano quadrinhista, um dos mais talentosos do país), Rogério Dias (hoje artista plástico consagrado), Solda, Rettamozzo, José Angeli (por onde andará?) e tantos outros. E até o João Antônio e o Caio Fernando Abreu - duas grandes perdas - o Moacyr Scliar e o Sílvio de Abreu (muito antes de sonhar em escrever novelas para a Globo) ‘‘defenderam uns trocados’’ publicando contos naquelas revistas. Como se percebe, a minha pulp fiction estava em boa companhia.

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