Wilmar Klein
Wilmar Klein
História(s) de alcoolismo
Devo ter dito alguma vez, neste espaço (se não me engano, em texto publicado em setembro do ano passado), que tive 17 internamentos em hospitais psiquiátricos devido ao meu alcoolismo. Justamente por causa desse currículo todo, não apenas sugeriram-me, em diversas ocasiões, escrever um livro contando a minha história, como outros alcoólatras com quem estive internado julgaram-me a pessoa mais habilitada do mundo para contar a deles. Sempre recusei ambas as coisas, não por algum tipo de pudor ou, no meu caso específico, receio de ser discriminado, e sim por preguiça e, principalmente, por considerar que a história de um alcoólatra é, em linhas gerais, muito parecida com a de qualquer outro alcoólatra: é só mudar o nome do personagem e dos locais - e isso porque o alcoolismo, assim como a dependência de outras drogas, possui, por assim dizer, a sua lógica interna, à qual o dependente não escapa enquanto permanece na ativa.
Eu, por exemplo, acordava com uma garrafa ao lado da cama, trêmulo, encharcado de suor, não raro com a mesma roupa que usara no dia anterior, e bebia, direto da garrafa (segurar um copo, nessas circunstâncias, é muitas vezes um luxo e uma impossibilidade), o equivalente a duas ou três doses para cessarem os tremores e para me sentir, não direi melhor, mas menos ruim. Às vezes, nos primeiros goles, tinha que correr ao banheiro para vomitar (e nem sempre dava tempo de chegar lá), porém continuava tentando até o meu organismo aceitar a bebida. Beber era uma necessidade imperiosa.
Depois disso, saía à rua e dava início à via sacra pelos bares da cidade - o que só iria terminar lá pela madrugada. Além dos tremores, tinha convulsões, delírios, alucinações, paranóia etílica, e conheci a inenarrável depressão causada pelo alcoolismo (com as idéias de morte que invariavelmente a acompanham). Desnecessário dizer que, nessas condições, o sujeito descuida completamente da higiene, vai perdendo o controle dos próprios esfíncteres e chega o momento em que já não consegue nem trabalhar nem se alimentar. Mas... não é esta, basicamente, a história de todo alcoólatra que tenha atingido um estágio mais avançado de alcoolismo? A coisa toda se parece com o Bolero de Ravel: as histórias de alcoolismo nada mais são do que variações do mesmo tema.
E, no entanto, continuo mantendo a minha opinião: não basta parar de beber (ou de cheirar ou injetar cocaína, ou de fumar crack, ou de se entupir de psicotrópicos, etc.). Isso, por si só, não constitui garantia de qualidade de vida (ainda que o indivíduo possa experimentar benefícios como uma melhora geral da saúde e da aparência). De nada resolve interromper o curso de uma dependência e ser infeliz para o resto da vida. Aliás, não foi por outra razão que tive tantas recaídas: para usar uma expressão comum em Alcoólicos Anônimos, eu apenas tampei a garrafa. Todo o resto continuava igual, isto é, sem sentido. Não é, pois, de admirar que, após um curto período de abstinência, voltasse ao copo (ou ao gargalo).
Construir um sentido e torná-lo efetivo quando não se é, como no meu caso, uma pessoa religiosa e nem possui uma vocação irresistível para a alienação, não é nada fácil, em especial quando se está convencido de que a vida, em si mesma, não possui um sentido (ou, se o possui, é inacessível à nossa compreensão) e, portanto, é preciso constituir um sentido para a própria existência.
Como sempre recusei substituir uma droga pela outra (ainda que, durante alguns anos, na minha juventude, tenha fumado maconha, tomado chá de cogumelo, experimentado LSD e outras drogas, o álcool sempre foi, desde o primeiro momento, a minha droga de eleição), também não quis recorrer - como alguns conhecidos meus fizeram - ao auxílio alienante de seitas religiosas, à confiança cega na orientação dos psicólogos e à adesão fanática aos grupos de mútua ajuda, pois tudo isso - religião, psicoterapia, mútua ajuda - pode ser usado como droga. Não faltou, é claro, quem afirmasse categoricamente que, por pensar assim e recusar essas formas de ajuda, eu em breve estaria bebendo, como antes, dois litros de vodca por dia e caindo aos pedaços por aí. Até agora, não viram isso acontecer (e faz tempo que não vêem), e o que posso dizer a esses dogmáticos, àqueles que acreditam que o único caminho viável e eficiente é o que escolheram para si mesmos (devendo isso valer para o resto da humanidade) - o que lhes posso dizer é: vão em frente e sejam felizes, se puderem, mas não tentem me convencer a passar o resto da minha vida dando depoimentos sobre os meus vinte e tantos anos de bebedeira, pois isso é um porre monotemático que de bom grado dispenso. E se toquei no assunto, oferecendo, de permeio, uns poucos flashes da minha história em nada original (e, portanto, o pior objeto que eu poderia escolher para um livro), é para ver se enjôo dela e escrevo outra história.





