Wilmar Klein
Em seu livro Olhar sobre o Passado (tradução de Antonio de Pádua Danesi, São Paulo, Martins Fontes, 1991), o pintor Vassily Kandinsky conta-nos esta passagem de fundo anedótico: ... já em Munique, em meu ateliê, quedei-me sob o encanto de uma visão inesperada. Era a hora do crepúsculo nascente. Acabava de chegar em casa com minha caixa de pintura, depois de executar um estudo, ainda enleado em meu sonho e absorvido pelo trabalho que acabava de terminar, quando deparei com um quadro de uma beleza indescritível, impregnado de um grande ardor íntimo. A princípio fiquei confuso, depois abeirei-me rapidamente do quadro misterioso no qual via apenas formas e cores e cujo tema me era incompreensível. Não tardei em encontrar a chave do enigma: era um dos meus quadros, encostado na parede com o lado para baixo.
O olho não se farta de ver, nem o ouvido se enche de escutar, disse o Eclesiastes (1,8), mas, não obstante a natural disponibilidade dos sentidos da visão e da audição para a diversidade, a maioria de nós prefere ver e ouvir as mesmas coisas e sempre do mesmo jeito, numa espécie de feijão-com-arroz da fruição do mundo. Uma preferência compreensível, na medida em que o espetáculo da diversidade, a visão do múltiplo, levados a extremos, conduzem à cegueira da perda de referências e ao terror. E não é por outro motivo que escolhemos refugiar-nos na ilusória segurança do que nos parece ser dotado de regularidade, constância e fácil inteligibilidade. O que se nos afigura familiar não constitui ameaça, não nos desconcerta nem paralisa.
Por outro lado, esse ver e ouvir as coisas sempre do mesmo jeito resulta em que ouçamos e vejamos menos. Em um trecho de Para Além de Bem e Mal (Obras Incompletas, tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, São Paulo, Abril Cultural, 1983, 3ª ed., p. 280), Nietzsche faz a seguinte observação: - Do mesmo modo que um leitor de hoje não lê todas as palavras (ou muito menos sílabas) de uma página - em vez disso tira, de vinte palavras, mais ou menos cinco ao acaso, e adivinha o sentido que supostamente compete a essas cinco palavras - tampouco vemos uma árvore exata e completamente, tendo em vista folhas, ramos, cor, figura; é tão mais fácil fantasiar um mais-ou-menos de árvore. E assim em relação à quase totalidade das coisas presentes em nosso dia-a-dia.
Por um condicionamento do hábito, decorrente de uma convenção, Kandinsky, como todos nós, acostumou-se a ver quadros pregados na parede ou, pelo menos - como é comum nos ateliês dos pintores - encostados nela numa posição universalmente considerada correta, isto é, nem de cabeça para baixo nem em outra qualquer posição que fuja à regra determinada pela mesma convenção. Desnecessário dizer que uma tela que, obedecendo a essa regra, se vê diariamente - tornando-se, portanto, familiar e destituída de novidade - tende à desaparição: está diante de nossos olhos, mas já não a vemos realmente. Transforma-se em algo menos que uma pintura: um simples objeto que já não informa coisa alguma. Não creio seja outro o destino da arte comercial do nosso tempo.
O olho não se farta de ver, nem o ouvido se enche de escutar - mas por que é que temos de aplicar isso à mesmice, a tudo aquilo que nada mais tem a nos dizer (se é que alguma vez o teve), àquilo é destituído de surpresa, de vitalidade? Por que, afinal, temos que nos resignar ao mais-ou-menos das coisas, se esse mais-ou-menos é, via de regra, a mediocridade?
P.S.: Não basta, é claro, alterar a posição de uma tela para abolir a mediocridade e restaurar a vitalidade da pintura (mutatis mutandis, restaurar a vitalidade de qualquer outro produto cultural), e sim a busca, cotidianamente renovada, de formas menos convencionais (isto é, não anestesiadas e banalizadas pelos condicionamentos do hábito e das tradições institucionalizadas), formas novas de apreensão e fruição estética não apenas das artes, mas dos fatos da existência como um todo. Em resumo, uma atitude experimental e aberta perante o mundo, por isso mesmo rica, estimulante e plena de surpresas.





