Lê-se em ‘‘A Maçã no Escuro’’, de Clarice Lispector: ‘‘O mundo era grande. Nesse mundo a verdade crescia sem sentido e pássaros famélicos voavam como num domingo. A árvore que ele viu era de pé. Na beleza do silêncio, a árvore. Foi assim que o homem profundamente viu. Olhou face a face a minúcia com que a beleza da árvore era inútil. Trezentas mil folhas tremiam na árvore tranquila. O ar tinha tanta graça excedente que o homem desviou os olhos. No duro chão empinavam-se arbustos. E as pedras. Era o que lhe restava. Aquele homem ali em pé não percebia que lei comandava o vento áspero e o faiscar silencioso das pedras. Mas ter deposto as armas de homem entregava-o sem defesa à harmonia imensa do descampado. Também ele puro, harmonioso e também ele sem sentido’’.
Existem na vida uns raros momentos (cuja gênese, por si só, já seria motivo para um longo e, suponho, inconclusivo estudo) em que se desfaz o nexo entre consciência e sentido e a lucidez se defronta com o Absurdo, ou, como escreveu Benedito Nunes em algum lugar, com ‘‘o espetáculo injustificável, gratuito, intolerável, da existência em ato’’. A obra inteira de Clarice Lispector está permeada por estas confrontações, por esses insights, o que lhe confere um interesse não apenas literário, mas também filosófico e mesmo místico.
‘‘Tem gente que cose para fora, eu coso para dentro’’, disse uma vez a autora de ‘‘A Paixão Segundo G.H’’, ‘‘Perto do Coração Selvagem’’, ‘‘A Hora da Estrela’’; mas, não obstante o caráter marcadamente introspectivo de sua obra, Clarice sabia que ‘‘se a vida interior é um desfile de ilusionista, é porque o Eu dos indivíduos nada tem de substancial’’ (e provavelmente teria concordado com o pensador francês Clément Rosset: ‘‘o fundo do espírito é delírio, acaso, indiferença’’). ‘‘Fui até onde pude. Mas como é que não compreendi que aquilo que não alcanço em mim... já são os outros?’’; ‘‘... quer alcançar o âmago de si mesmo. Mas esse si mesmo não existe’’- são frases típicas da escritora.
Clarice Lispector que, ainda menina, enviava histórias para um jornal de Recife, que as recusava porque, afinal, não eram histórias (pelo menos não o eram no sentido convencional de uma sucessão de fatos) buscava o autoconhecimento através da palavra, e assim também o conhecimento do mundo, porém não desconhecia que o resultado dessa busca é uma espécie de curto-circuito, a falência da própria busca, a náusea conforme a descreve o acima citado Benedito Nunes num dos ensaios de sua coletânea ‘‘O Dorso do Tigre’’ (Editora Perspectiva, 1976, 2ª ed.): ‘‘o significado da náusea, mais transtornante do que a angústia, não é a simples descoberta da existência, como fato irredutível, absoluto. É, também, a descoberta de que esse fato é contingente, totalmente gratuito, reduzindo-se ao Absurdo, que nenhuma razão, nenhum fundamento podem eliminar. A consciência, embebida do Absurdo, descobre-se supérflua, irrelevante. Sua liberdade paralisada apenas esboça, como nas emoções violentas, uma recusa, uma reação de fuga, que então se manifesta pelo desejo de vomitar: a náusea’’. (Diante desse duplo aspecto físico e metafísico da náusea, não há como não lembrar de ‘‘A Paixão Segundo G.H’’ e o confronto entre a protagonista e a barata que ela esmaga.) ‘‘A raiz da árvore, a cobra, o homem’’-prossegue Nunes, tendo em vista ‘‘A Náusea’’, de Jean-Paul Sarte, que é o objeto de seu ensaio ‘‘participam da mesma contingência absurda e inumana, do mesmo crepitar da existência indefinida que, numa vitalidade indiferente aos nossos projetos, propaga-se de ser a ser’’. Essa ‘‘contingência absurda’’, esse ‘‘crepitar da existência indefinida’’, a percepção dessa ‘‘vitalidade indiferente’’ constituem o cerne da bela e terrível obra de Clarice Lispector.

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