Wilmar Klein
Benedetto Croce, logo no início de seu Breviário de Estética, coloca a pergunta acima, apressando-se em dizer que a ela poder-se-ia responder brincando (mas não seria uma brincadeira tola) que a arte é aquilo que todos sabem o que é. E, verdadeiramente, se não se soubesse de algum modo o que ela é, não se poderia sequer fazer essa pergunta, porque toda pergunta traz alguma notícia da coisa sobre a qual se pergunta (tradução de Rodolfo Ilari Jr., editora Ática, 1997).
Penso, no entanto, que, se Croce ainda estivesse vivo e a questão fosse o que é arte, hoje?, por certo teria que pensar em outra resposta, até porque, ante a progressiva perda de referências, não seria exagero dizer que, atualmente, ninguém sabe mais direito o que é arte e, portanto, arte pode ser qualquer coisa. Por exemplo, uma horta (e das mais prosaicas), como a concebida pelos escultores suíços Peter Fischli e David Weiss e apresentada (ao ar livre, como convém a uma horta) no Sculpture Project realizado em Munster (Alemanha) no ano passado; um brechó, como a Volksboutique que a norte-americana Christine Hill montou, também em 97, na Documenta de Kassel e funcionou como uma filial do brechó homônimo que a artista possui em Berlim (Hill pretendeu que a Volksboutique da Documenta fosse vista como uma instalação e uma forma de crítica contra as formas hipertecnológicas de trabalho, embora, na prática, em nada se diferenciasse de qualquer outra loja destinada à venda de roupas e objetos de segunda mão); um viveiro com borboletas, como o que o sueco Henrik Hakausson levou à última Bienal de Veneza; um tubarão-tigre preservado em formol dentro de um compartimento de vidro (obra do inglês Damien Hirst denominada A Impossibilidade Física da Morte na Mente de Alguém Vivo); intervenções cirúrgicas (como aquelas a que a francesa Orlan se submete e registra em vídeo); 6.000 sapatos velhos pendurados na parede (trabalho de Hélio Melo no Arte/Cidade 3, nas ruínas do antigo Moinho Central, em São Paulo); um sujeito numa torre de transmissão manipulando 17 mil volts de energia e protegido apenas por um banho de óleo isolante e luvas de borracha especial (o sujeito, no caso, é o norte-americano Barry Schwartz); e ainda recentemente, num museu de Sarajevo, alguém cujo o nome não lembro expôs dois isqueiros de plástico (desses bem comuns, que você encontra à venda em bancas de revistas), um ao lado do outro, deu à obra o nome de Beijo e levou o primeiro prêmio para jovens artistas. Ou seja, arte, hoje em dia, é o que o sujeito que se diz artista diz que é arte, e o mais curioso é que a maioria das pessoas que se dizem modernas e cultas, mesmo achando intimamente que arte não é nada disso, não tem coragem de contradizer o dito artista, com medo de parecer ignorante. E é assim que as fraudes se estabelecem e se institucionalizam.
Confiante nessa perda de referências da arte contemporânea, confiante nesse vácuo estético, tenho incentivado as pretensões artísticas da minha mulher á- a jovem, doce e meio tresloucada Lizandra á- e visto surgirem pires e xícaras colados nas paredes da sala, dúzias de velas de todas as cores no banheiro (nas bordas da pia e da banheira, sobre as torneiras que não funcionam e até sobre a válvula de descarga) e também velas escorridas sobre garrafas azuis junto à máquina de escrever estropiada que tenho lá em casa e faço questão de não usar. E, é claro, convenci a Lizandra de que não devíamos nos desfazer da nossa TV em preto & branco, cuja antena está emendada em cinco ou seis lugares e traz um lindo bom-bril na ponta. Os próximos passos serão colocar em molduras (compradas em loja de artigos a R$ 1,99) objetos como um saca-rolhas, uma ferradura (que originalmente serviria como peso para papéis), uma chave antiga, uma tesoura sem fio, uma joaninha de plástico, entre outros, e pregar um pôster do Marilyn Manson no banheiro. Mais alguns detalhes aqui e ali, e, quando tivermos bastante sucata e tralhas em geral espalhadas pela casa, vamos filmar tudo e transformar em hologramas a serem exibidos como instalação virtual na próxima Bienal de São Paulo. Estou certo de que o nosso lixo doméstico fará boa figura ao lado das obras dos grandes artistas contemporâneos e não ficarei nem um pouco surpreso se recebermos convites para expor na Documenta e na Bienal de Veneza.





