Atribuído, em seu título hebraico, a Salomão, que o teria escrito por ocasião de suas núpcias com a filha do Faraó, o ‘‘Cântico dos Cânticos’’ foi, ao longo dos séculos, alvo das interpretações de diversas escolas, sendo as principais a escola literal, a mística e a alegórica. Esta última, sem dúvida, contou com os melhores exegetas e possui respeitável antiguidade, manifestando-se já no Talmude e no Midrasch e, posteriormente, em Orígenes, que, modificando o que aprendera na exegese judaica, ‘‘viajou na maionese’’, entendendo que o Esposo (no caso, o filho de Davi) representaria Cristo, a Esposa (a Sulamita) representaria a Igreja ou a alma fiel, os amigos de Salomão seriam os anjos que defendem a Igreja e as companheiras da filha do Faraó as almas ainda imperfeitas que aspiram à união com Deus. Por aí foram Eusébio, São Cipriano, São Jerônimo e outros veneráveis doutores da Igreja; e Cornélio a Lápide queria porque queria ver na Esposa a Virgem Santíssima, não faltando, entre os representantes da escola mística, quem lhe endossasse a opinião.
A escola literal, por sua vez, remonta a Schammai e seus discípulos, que, no tempo de Cristo, negaram a inspiração divina do ‘‘Cântico’’, e encontra eco em Teodoro de Mopsuesto (360-429), para quem o poema deveria ser visto tão-somente como um epitalâmio. Assim como o Rabbi-Eleazar ben Azariah, presidente de Sanhedrim, condenou, no ano 90 da era cristã, a opinião de Schammai, a Igreja não fez por menos e formalmente condenou a de Teodoro no segundo concílio geral de Constantinopla.
Mas vejamos alguns trechos do poema, aqui na versão clássica do padre Antônio Pereira de Figueiredo:
Já no capítulo 1, versículo 1: ‘‘Porque os teus peitos são melhores do que o vinho’’.
C. 4, vv. 10 e 11: ‘‘Que lindos são os teus peitos, irmã minha esposa! os teus peitos são mais formosos do que o vinho, e o cheiro dos teus bálsamos excede o de todos os aromas.
‘‘Os teus lábios, ó esposa, são como um favo, que destila doçura, o mel e o leite estão debaixo da tua língua: E o cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do incenso’’.
C.5, vv. 3 e 4: ‘‘Eu me despojei da minha túnica...’’, ‘‘O meu amado meteu a sua mão pela fresta e as minhas entranhas estremeceram...’’.
C.7, v. 2: ‘‘O teu umbigo é uma taça feita ao torno, que nunca está desprovida de licores. O teu ventre é como um monte de trigo cercado de açucenas’’.
C. 7, vv. 6, 7 e 8: ‘‘Quão formosa, e quão engraçada és, ó caríssima, nas delícias!
‘‘A tua estatura é assemelhada a uma palmeira, e os teus peitos a dois cachos de uvas.
‘‘Eu disse: Subirei à palmeira e colherei os seus frutos...’’
Convenhamos: é ‘‘forçar a barra’’ querer enxergar, em versos quetais, Cristo e a Igreja, como pretendia o neoplatônico Orígenes. E, se formos pela cabeça de Cornélio a Lápide, chegaremos a um poema sobre incesto.
O padre Santos Farinha, que acresce (com base em Glaire, Lestrade, Vigoroux, Bossuet, etc.) comentários à versão de Pereira de Figueiredo, procura justificar a sensualidade das descrições contidas no ‘‘Cântico’’, argumentando que ‘‘a simplicidade da língua é proporcional à singeleza dos costumes: o povo hebreu estava num estado de simplicidade natural e por isso não se escandalizava com as descrições que hoje ferem os ouvidos e perturbam a imaginação dos modernos civilizados. Além disso, na linguagem, como no vestuário, pela mesma razão, não havia entre os homens e entre as mulheres as reservas de agora’’. Com isso, apenas chama a atenção para o quanto nos tornamos hipócritas desde então.

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