Wilmar Klein
Wilmar Klein
Instâncias do inútil
Antonio Dias/Eu sou uma onça e você uma mulher 1. Dela o sogro de Luís XV, o rei Estanislau I, da Polônia, disse que era como o sol, a quem um eclipse pode escurecer mas não pode extinguir; e, muitos séculos antes, dissera Cícero nada haver mais suave que a sua luz - a da Verdade, pois é dela que falarei. Porém... existirá Verdade - assim, com maiúscula, e inquestionável? Duvido e faço pouco, o que não me impede de apreciar as muitas opiniões sobre a verdade (doravante grafada com minúsculas, mas sem perder a pose). E, é claro, o haver muitas opiniões sugere, logo de cara, que a coisa é plural.
2. Belas opiniões, a do gramático latino Aulo Gélio - A verdade é filha do tempo-, de Etienne Jouy - é a luz do espírito-, de Hugo - é alimento como o trigo-, Antonio de Solis - é a alma da história. E eu acrescentaria: é muita coisa para uma só palavra. Do que é que vocês estão falando, afinal?
3. Mais razoável sempre me pareceu Pascal, ao dizer que as coisas são verdadeiras ou falsas segundo o ângulo pelo qual as encaramos. E Aldous Huxley (que não gostava de Pascal) lhe fez eco: ... o critério da verdade e da falsidade terá sempre de permanecer interno, psicológico. Falar sobre a verdade como uma relação entre conceitos humanos e coisas em si é um absurdo. Obviamente, nem a Pascal nem a Huxley ocorreria classificar como verdades psicológicas o fato de a água ser molhada e de o fogo queimar - e isso porque em tais casos não se está lidando com conceitos, e sim com a apreensão direta da realidade. (Aqui, no entanto, surge um outro problema, o de saber o que é ou não realidade, e, diante dele, o autor de As Portas da Percepção se mostra, a um tempo, relativista e pragmático: ... o que seja, de fato, realidade é coisa que ninguém sabe ao certo; na prática, porém, e em proveito de objetivos particulares do momento, realidade é o que convencionamos como tal). Seja como for, mesmo na apreensão direta do conjunto de coisas que chamamos de realidade, nem tudo se mostra tão uniforme e constantes em suas propriedades quanto o fogo e a água: o ruibarbo nem sempre age como um purgativo ou o ópio como um soporífero para todos os que ingerem esses medicamentos, exemplifica, em sua Investigação sobre o Entendimento Humano, o filósofo escocês David Hume.
4. O mundo é variedade e dessemelhança (Montaigne, citado de memória). Como achar verdades nesse emaranhado?
5. Há muito deixei de procurá-las pela via filosófica ou religiosa, e, se recorro a tal ou qual filósofo, é no sentido de ilustrar a inutilidade da procura. Todas as opiniões até aqui - inclusive as minhas - são instâncias da mesma inutilidade. E, de resto, as opiniões é que estragam o mundo, tanto mais quando, objetos de disputa, se transformam em dogmas.
Lembro agora de um meu psiquiatra, que costumava dizer que todos sempre têm um pouco de razão. Para mim, isso é o mesmo que ninguém ter razão ou, quando menos, constatar que tê-la muito pouco não serve para nada. E assim com relação às verdades.





