Wilmar Klein
Reprodução/obra de Amilcar de CastroAchei por bem, em certa ocasião, cunhar um neologismo,
apânticoEm seu livro The Renaissance, o crítico inglês Walter Pater faz a seguinte constatação, que, segundo creio, nenhum de nós terá dificuldade em endossar: A cada momento alguma forma alcança a perfeição no nosso tato ou visão; algum matiz nas montanhas ou no mar é mais primoroso que os demais; alguma espécie de paixão ou vislumbre ou estímulo intelectual nos é irresistivelmente real e atrativa - apenas naquele momento. O fim não é o fruto da experiência, mas a própria experiência. É-nos dado somente um número contado de palpitações de uma vida variegada, dramática (apud Edmund Wilson, O Castelo de Axel, tradução de José Paulo Paes, São Paulo, Cultrix, 1967).
Talvez já tenha ocorrido ao leitor, após ter oferecido um jantar ou dado uma festa em sua casa, encontrar-se sozinho e em silêncio na sala (lá fora, a rua está morta, a madrugada avança), e experimentar como que um aumento da materialidade dos objetos que o cercam - um incremento de realidade no qual esses objetos readquirem, por assim dizer, a sua autonomia, isto é, deixam de ser objetos em relação a nós, objetos dotados de uma função (ainda que decorativa), para se imporem como objetos em si. A sensação é de estranhamento: o fato de percebê-los melhor (ou, pelo menos, diferentemente) retira-lhes a familiaridade genérica que os revestia, e, em face a alguns deles, será como se os estivéssemos vendo pela primeira vez. É uma sensação de duração relativamente curta, obtida mediante o concurso de muitos fatores (por exemplo, o contraste entre o burburinho, a agitação da festa e o silêncio e a solidão subsequentes; o efeito do cansaço e de algumas doses de bebida a mais; as condições subjetivas que permitem perceber o que Benedito Nunes, em O Dorso do Tigre, chamou de presença sensível, excessiva, saturante do Em-si - no caso, o Em-si dos objetos, que, de resto, estão sempre aquém das palavras que os designam -; etc). Sob certos aspectos, é uma experiência epifânica e, portanto, irrepetível, refratária à auto-indução (a repetição auto-induzida produziria, quando muito, um pálido simulacro da experiência, uma fraude, uma alienação semelhável à daquelas pessoas que, recorrendo a mantras, jejuns, incenso, música new age e quetais, julgam-se apetrechadas para atingir elevados estados de consciência a seu bel-prazer).
Epifania, no entanto, é uma palavra de fortes conotações religiosas, do mesmo modo que insight pertence ao jargão da psicologia; assim, diante de experiências desse tipo, achei por bem, em certa ocasião, cunhar um neologismo, apântico, sugerido pelo substantivo dicionarizado apantomancia, ou seja, adivinhação ou previsão por meio de coisas que se apresentam imprevistamente aos olhos. O apântico seria, portanto, a matéria-prima fornecida pelo acaso capaz de produzir em seu receptor, sob determinadas condições, uma sensação de espanto e maravilhamento, um lampejo do sublime. Potencialmente, qualquer coisa é capaz de produzir isso (embora não se possa prever em que momento e sob quais circunstâncias), e assim agrada-me pensar que - presente em apantomancia e, por extensão, em apântico - a raiz ápas, ápantos - tudo, em grego - trazia embutida a consciência de que tudo (cada objeto do universo, em sua irrepetibilidade) possui a semente do sublime e, portanto, tudo é, concomitantemente, fonte de surpresa, maravilhamento, terror e êxtase perante a diversidade.





