Tanto mais me indisponho com a adulação que a vaidade alheia dispensa aos textos que produz quanto desconfio dos meus e sequer tenho por hábito conservá-los (mesmo estes que escrevo para a Folha , só os tenho mais ou menos à mão porque alguém se dá ao trabalho de recortá-los e arquivá-los). Irrita-me, em particular, o fato de ser a vaidade, via de regra, inversamente proporcional ao talento; e deve ser por isso que encontro tantos poetinhas, poetastros, beletristas, vanguardeiros, pseudo-intelectuais e outros ‘‘malas’’ pavoneando-se nos botecos desta Curitiba de Dalton Trevisan (um grande escritor, e também um escritor muito do chato), Emílio de Menezes (chato tipo ‘‘exportação’’, causou algum frisson fora da nossa província e foi mencionado - como má influência - por Oswald de Andrade), Paulo Leminski (o Leminski era meu amigo e, portanto, não era um chato, porém, em seus piores momentos, não ia muito além do mero trocadilhista - ainda havendo quem ache isso é o mesmo que ser vanguardista) e dona Helena Kolody (dona Helena Kolody é um doce e eu, bem ou mal, sou um cavalheiro). Seja como for, escreve-se por vaidade, com a ressalva de que a minha não me impede de reconhecer que não sou Machado de Assis.
Respondida a pergunta que dá título a estas maltraçadas (e os mais vaidosos e medíocres serão os primeiros a não concordar com a resposta), impõe-se questão mais séria: para que, afinal, serve um escritor? Para retormar o assunto daqui a pouco, procuremos saber primeiro o que a literatura não é, bastando para tanto negar tudo o que um escritor ruim, Olavo Bilac, diz que ela é: ‘‘todo o pensamento e toda a palavra, todas as paixões e todas as idéias, todas as formas, todas as cores e todas as harmonias da vida’’. Isso não é literatura, e sim um surto de onipotência e um convincente exemplo de hipérbole bilaquiana. E, se a literatura não é tudo isso, o escritor é ainda menos.
‘‘O engano mais frequente do escritor’’, notou, cheio de razão, o marquês de Vauvenargues, ‘‘é julgar que exprime as coisas tais como as percebe ou sente’’ (ilusão persistente, inerradicável no mau escritor). Um outro é conferir demasiadas importância ao seu ofício, talvez acreditando, como Tristão de Ataíde (isto é, Alceu Amoroso Lima), que ‘‘a literatura é um dos sinais característicos da dignidade e elevação do homem’’. E, muito digno, sentenciava: ‘‘Ou é a literatura uma elevação do homem ou não é literatura’’. Sabemos todos (ou seria desejável que soubéssemos) quanto os nobres sentimentos e elevados propósitos produzem má literatura. E, pensando bem, uma que se proponha a ‘‘elevação do homem’’ nem é literatura; em geral, é Tristão de Ataíde.
Mas voltemos à pergunta: para que serve um escritor? E a resposta que posso dar é: sei lá - afinal, os escritores são os outros, e. fosse para eles evidente o que suspeito sobre a sua utilidade (salvo aquela de distrair o ócio dos seus leitores), é bem provável que não escreveriam coisa alguma. Quanto a mim, apenas falo com letras de forma e alguém, que dá feedback ao meu monólogo, seja para inflar o meu ego ou porque não encontrou nada melhor para fazer, tem sempre a bondade de me ouvir.

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