Autor de obras como ‘‘El Héroe’’, ‘‘El Político Fernando’’, ‘‘Arte de Ingenio o Tratado de Agudeza’’, ‘‘El Criticón’’ e ‘‘Oráculo Manual o Arte de Prudencia’’, Baltasar Gracián (1601 - 1658) já foi chamado de ‘‘o último dos sofistas’’, e não sem razão: como os filósofos gregos contemporâneos de Sócrates que se incubiram da tarefa de ensinar a sabedoria (sophistés, em grego, quer dizer sábio) e a habilidade, este pensador espanhol fez o elogio do engenho e da sutileza, pregando um ideal de alta cultura aristocrática voltada para o brilho das aparências. Escreve ele: ‘‘Não permite o homem culto a ninguém perscrutar a fundo seu caudal, caso queira ser venerado por todos. Formidável fora um rio até que lhe encontram o vau, e venerado um homem até que se soube o limite de sua capacidade, porque a profundidade ignorada, mas pressuposta, sempre manteve, com o receio, o crédito’’.
Também como os sofistas, Gracián prezou a retórica e a eloquência: ‘‘Grande sutileza da vida, saber vender ar. Quase tudo se paga com palavras, e bastam elas para realizar o impossível. Negocia-se no ar e com o ar; e se anima muito o ânimo soberano. Há que se ter sempre a boca cheia de açúcar para se confeitarem as palavras, que os próprios inimigos saboreiam’’. Que grande diplomata não teria sido esse espanhol!
Porém, que ninguém se iluda a respeito de Gracián: se preconizava o cultivo das aparências, não é porque fosse um pensador fútil, mas, ao contrário, porque conhecia bem a alma humana e, por conseguinte, a fragilidade, a inconstância e a superficialidade de suas ‘‘verdades profundas’’. Não por acaso, Reinach o chamou de ‘‘primeiro profeta do pessimismo’’ e Schopenhauer traduziu um dos seus livros (‘‘O Oráculo Manual’’). Quanto à sua obra mais conhecida, ‘‘El Héroe’’, inspirou homens de espírito refinado como Carlyle, Emerson e Nietzsche (e também isso não é por acaso). Dela - aqui na tradução de Acácio França (em ‘‘Moralistas Espanhóis’’, W.M. Jackson Inc. Editores, 1970) - reproduzo o trecho a seguir, também para que lhe apreciem o estilo (nada mais coerente, aliás, para um homem que recomendava o cultivo das aparências e das convenções, igualmente se esmerasse nas palavras com que buscava convencer e influir).
‘‘É a prontidão do oráculo nas maiores dúvidas, esfinge nos enigmas. Fio de ouro em labirintos, e sói ser de condição de leão, que guarda o extremar-se para maior aperto’’.
‘‘Mas há, também, perdidos de engenho como de bens, pródigos de agudeza para presas sublimes, tagarotes para as águias vis. Mordazes e satíricos, que se os cruéis se amassaram com sangue, estes com veneno. Neles, a sutileza, com estranha contrariedade por leviana, abala, sepultando-os no abismo de um desprezo, na região do enfado’’.
‘‘Até aqui, favores da natureza; daqui, realces da arte. Aquela gera a agudeza, esta alimenta-a, já de alheios sóis, já de prevenida advertência’’.
Baltasar Gracián é um filósofo (creio que posso chamá-lo assim, embora não tenha criado nehum sistema filosófico, mas por sua atitude, que, como em Montaigne, é filosófica) - e um filósofo artificialista, como, de resto, o foi o melhor do pensamento do século 17. Mas, afinal, o que há de mais natural do que ser artificial?

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