Wilmar Klein
ReproduçãoEnquanto pensamento teórico que pretende desenvolver-se sobre seus próprios princípios abstratos ou sistema de idéias dogmaticamente organizado como instrumento de luta política (que são duas de suas definições, presentes no Aurélio - a primeira, sob a ótica da filosofia; a segunda, sob a da política), a ideologia é uma das mais inconsistentes criações do homem, embora, em determinadas circunstâncias, possa ser também uma das mais perniciosas.
Toda ideologia é um discurso sobre não-seres ou - o que dá no mesmo - sobre entidades abstratas (por exemplo, a justiça, o direito, Deus, a finalidade). Via de regra, não é mais do que um arranjo de palavras - extenso e entediante. A questão é: quem declara seguir uma ideologia de fato acredita nela? Deixemo-nos guiar por nossa intuição e forneçamos a resposta tendo em mente os políticos e os intelectuais. Mas nem por isso assumamos uma posição antiideológica, pois esta, como observa Clément Rosset em sua Lógica do Pior, em nada difere daquilo que julga combater: Querendo, com a ajuda do discurso antiideológico, assinalar o vazio, o branco, o oco do discurso ideológico, mascarou-se a verdade do discurso antiideológico que é, em seu princípio mesmo, exatamente tão vão quanto a ideologia que pretende derrubar: uma vez reconhecido que a ideologia recobre um nada, a inconsequência maior é querer apagar esse nada. Nada pode apagar um nada. O que caracteriza assim finalmente o discurso antiideológico é, paradoxalmente, um levar a sério a ideologia. Toma-se o homem ao pé da letra: se ele diz que é, é porque não sabe que etc. Esse levar a sério a ideologia é característico da ideologia; ou melhor, ele é a ideologia mesma (págs. 37/38, tradução de Fernando J. Fagundes Ribeiro e Ivana Bentes, Rio de Janeiro, Espaço e Tempo, 1989).
Quanto à crença que a ideologia possa devotar às suas abstrações, compartilha da problemática comum a todas as crenças, conforme assinalado por Hume (a obra inteira deste filósofo escocês visando estabelecer que): se o homem é sempre capaz de defender suas crenças, de dizer por que ele crê, ele é incapaz, em contrapartida, de precisar no que ele crê (cf. Rosset, op. cit., p.45). Assim, pode um homem morrer por uma ideologia, mas ironicamente, é incapaz de aderir verdadeiramente a ela. Ou seja: morrerá por nada.
No entanto, parodiando Nietzsche (o homem prefere ainda ter vontade do nada, que nada querer), valeria dizer: o homem ainda prefere crer em nada, que nada crer. Em última instância, a crença numa ideologia é, a exemplo de toda crença, menos o resultado de uma convicção do que um hábito (ressalvando, é claro, que a maioria de nós escolhe iludir-se com falsas convicções).
De resto, todos sabemos do que são capazes as idéias e as palavras que as divulgam (não raro ocultando suas verdadeiras motivações); e isso, se fôssemos mais sinceros, equivaleria a admitir que a estupidez desconhece limites e reconhecer que, por um excesso de idéias estúpidas e palavras idem, ainda poderemos explodir este planeta.





