Wilmar Klein
WILMAR KLEIN
Monterroso e o dinossauro
Dele sei quase nada. Apenas que é guatemalteco; o nome, Augusto Monterroso - escritor -, e umas poucas autodefinições: cidadão de lugar nenhum, autodidata especializado em nada, andarilho com raízes no céu. De resto, conheço a capa de um dos seus livros, Viaje al centro de la fábula (que mostra um leão com asas ao lado de uma melancia), e sei também que escreveu o menor conto do mundo (com o qual, nos anos 50, venceu um concurso promovido pela revista Life e recebeu como prêmio mil dólares). O conto, chamado O dinossauro, é o seguinte: Quando despertou, o dinossauro ainda estava lá. Só isso.
Parece bobagem enaltecer um conto como este, e, no entanto, considero-o perfeito. Numa única frase, de tensão concentrada, a imantação de três tempos de uma ameaça: o que antecede o despertar do vago personagem (podemos imaginá-lo um troglodita acuado em sua caverna pelo monstro pré-histórico e afinal vencido pela fadiga e pelo sono), o que se caracteriza pela persistência da ameaça (Quando despertou, o dinossauro ainda estava lá) e o que abriga o terror de um destino incerto (jamais saberemos como a história termina, assim como a personagem não pode sabê-lo ao constatar a permanência do monstro). O texto, mínimo, espraia-se, pois, temporalmente, passado e futuro incerto convergindo como reforços dramáticos da situação visível. Sob este aspecto, O dinossauro é uma pequena pérola de suspense.
Creio que foi Guimarães Rosa quem disse que um texto pode valer pelo muito que nele não coube; eu diria que pode valer pelo muito que ele sugere - e tal é o caso da miniatura de Monterroso. O dinossauro é uma espécie de iceberg, que tem a maior parte de suas massa submersa. Porém, a ponta do iceberg - o texto visível - sugere todo o iceberg. Ou os icebergs, unidos por uma ponta comum, mesmo porque, em decorrência da necessidade que o leitor experimenta de agregar a sua imaginação ao conto para completá-lo (o que cada um fará com boa dose de liberdade), este permite várias leituras.
Pode-se, por exemplo, tomar o dinossauro como uma metáfora da angústia que experimentou ante a persistência (isto é, a reiteração, a repetição), como quando, voltando a dormir, retomamos um pesadelo. (O pesadelo, no minúsculo conto de Monterroso, deriva da persistência da ameaça oferecida pela vigília, ou seja, pela realidade exterior, fonte dos medos). E também angústia ante a incompletude, como quando nos deparamos com algum misterioso fragmento de Heráclito ou Empédocles. A favor de Augusto Monterroso, vale lembrar que é essa mesma angústia que nos leva, de certa forma, a ser co-autores de O dinossauro (embora nem todos mereçamos mil dólares por isso). Talvez o dinossauro seja uma esfinge.
P.S.:Como disse no início, este conto parece-me perfeito, e tanto que nos faz esquecer com facilidade dois fatos cujo conhecimento há muito deixou de ser exclusividade dos paleontólogos: 1º) que os dinossauros desapareceram da face da Terra muito antes de surgir o primeiro homem; 2º) que os dinossauros eram herbívoros - portanto, ao dinossauro do conto, não lhe apeteceria devorar o nosso anônimo troglodita (ainda que houvesse um para devorar).





