Wilmar Klein
Em uma entrevista que releio, concedida em Buenos Aires no final de 1991, o Nobel de Química de 1977 e diretor dos Institutos Internacionais de Física e Química, na Bélgica, o russo Ilya Prigogine, manifesta a sua convicção de que a marca fundamental deste final de século é a ênfase, dada não apenas pela ciência, mas também pelas humanidades (estas por influências daquela), ao instável, ao flutuante, ao não-linear.
Ao lhe perguntarem sobre a sua postura quanto à relação entre objetividade, realidade e conhecimento científico, Prigogine respondeu: Existem diferentes concepções do que significa a realidade. A acepção mais comum implica uma visão determinista e mecanicista. Por este ponto de vista não sou um realista, pois não creio que a realidade possa ser reduzida ao mecanismo de um relógio, uma vez que o universo seria um autômato. Sem dúvida alguma, tudo o que vemos na natureza é muito diferente de um robô. Tudo segue um padrão evolutivo, é instável, se transforma. É o tipo da declaração que, embora não seja nova no campo científico, nem por isso é menos importante, pois afirma, em última instância, o real como o império do Acaso.
Após recomendar à empresa científica (e, implicitamente, à empresa filosófica, artística, entre outras) a atenção, com vistas a uma descrição, aos objetos não-periódicos, isto é, instáveis (ou seja, atenção às emergências aleatórias), em oposição à ciência clássica, que buscava objetos privilegiados, dotados de uma certa regularidade dentro de uma dada visão de mundo (a visão determinada e mecanicista a que se aludiu), diz que a sua busca está orientada em direção a um novo tipo de realidade, que pode ser expressa em termos científicos. Em outras palavras, sou um realista voltado para uma nova realidade.
Mas alguma coisa não bate... Se um modelo bem ordenado, de leis atemporais, como o que buscava, por exemplo, a física clássica, não serve para descrever a realidade, mesmo um modelo que incorpore noções como caos, acaso, desordem, descontinuidade, não-linearidade e outras afins (que, afinal, são a mesma idéia) não servirá para descrever o real. Isso porque qualquer modelo sobre o qual se debruce o interesse das ciências será ainda uma representação do real - e, portanto, nenhuma representação de uma coisa será essa coisa.
O real só se sustenta em si mesmo e furta-se a qualquer tentativa de conhecimento através de uma representação, seja ela fornecida pela ciência, filosofia, religião etc. O real estará sempre aquém do início de qualquer empreitada que vise entender o real. O desejo de domá-lo através do conhecimento é, pois, tarefa inútil e só revela a crônica incapacidade do homem para aceitar a realidade. A porcaria em relação a este bípede é que se recusa a aceitar a idéia de que ele é até prova em contrário, um produto do Acaso (que coloco com maiúscula só para enfatizar, embora ele não tenha importância em si), e assim, na ânsia de procurar sentido para a existência, está sempre enredado em ficções. E, no entanto, bastaria pura e simplesmente existir. Não é preciso sentido para validar isso.





