Wilmar Klein

O problema do mal

ReproduçãoNietzsche‘‘Vejamos portanto se é possível afirmar com autoridade que aquilo a que chamamos mal não o é em si, o que dá no mesmo, se ainda que o seja depende de nós mudar-lhe a aparência e as consequências.’
(Michel de Montaigne, ‘‘Ensaios’’ - tradução de Sérgio Milliet - São Paulo, Abril Cultural, 1972, col. ‘‘Os Pensadores’’, vol. XI, p. 33.)
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‘‘O que é o mal? Nietzsche, ao se fazer esta pergunta, respondeu: ‘‘ O acaso, o incerto, o súbito’’. Ou seja, o mal, para o autor da ‘‘Gaia Ciência’’ e da ‘‘Genealogia da Moral’’, é contingente, e só o é em função de um receptor da mesma contingência, da incerteza, da subitaneidade. Não é, pois, um princípio, como o era, por exemplo, para os maniqueístas, que, buscando acomodar tanto a perfeição de um Ser infinito - associada ao bem - quanto a origem do mal e a imperfeição dos homens, imaginaram um princípio criador da matéria, independente deste Ser, e inventaram fábulas poeticamente engenhosas para explicar a existência do mal sobre a Terra, como aquela na qual, após uma luta entre o primeiro homem e os demônios, estes foram aprisionados nas estrelas, de onde lançam, no entanto, os seus fetos diabólicos sobre o nosso mundo sublunar. Por sua vez, Agostinho, vigoroso adversário do maniqueísmo após a sua conversão (na juventude, ele próprio engrossou as fileiras dos maniqueístas), resolveu, de uma penada, a questão: o mal não existe. Nas pegadas de Plotino (e nunca será demasiado ressaltar a dívida do bispo de Hipona para com os neoplatônicos), argumentou que, sendo o mundo um produto da sabedoria e bondade de Deus, que o criou, é obra perfeita. O mal que nela identificamos resultaria de nossa visão parcial das coisas, sendo, portanto, destituído de substancialidade. (É interessante confrontar a visão agostiana, na qual o mal não existe, com a do marquês de Sade, para quem o mal é a única realidade - confronto que Octavio Paz fez brilhantemente num ensaio que se não me falha a memória, tem o título de ‘‘Os Cárceres da Razão’’.)
Porém, não precisamos nos deter nos vários pontos de vista filosóficos sobre o mal. Na prática, o mal não existe no singular. Ou dito de outro modo: o mal são os males. Destes temos experiência direta, cotidiana, e nem é o caso de atribuir-lhes uma causa sobrenatural. Lê-se na ‘‘Odisséia’’, de Homero, aqui na tradução de Antônio Pinto de Carvalho, estas palavras de Zeus: ‘‘Ah! de que maneira os mortais censuram os deuses! A dar-lhes ouvidos, de nós provêm todos os males, quando afinal, por sua insensatez e contra a vontade do destino, são eles os autores de suas desgraças. De resto, dos males que o próprio homem fabrica para si mesmo e deles sofre as consequências, somos todos, como nesta frase de Jean-Paul Sartre. ‘‘metade vítimas, metade cúmplices’’.
P.S.: Se servir de consolo, lembre-se do ditado popular: não há bem que sempre dure, nem mal(es) que nunca se acabe(m). Este(s), haverá sempre como minorá-lo(s) se lhe(s) acrescentarmos a esperança, e mais ainda se a esperança derivar da fé, essa formidável ‘‘invenção’’ humana, de inegável valor terapêutico, sobre ser capaz da proeza de converter o mal em bem sob o rótulo de ‘‘provação’’ ou qualquer outro nome que se lhe queira dar.

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