Wilmar Klein
Nas pegadas do Dr. Cabanis (1758-1808), médico francês, autor de Les Rapports du Physique et du Moral (publicados postumamente, em 1812), que afirmava serem os pensamenos os excrementos do cérebro (e, cá para nós, dá vontade de concordar com isso quando se leva em conta a irreprimível vocação do homem para pensar bobagem), o alemão Karl Vogt (1817-1895) dizia, em suas Cartas Fisiológicas (1847), estarem os pensamentos para o cérebro assim como a bílis para o fígado e a urina para os rins. Verificava-se então, na Alemanha como em outros países da Europa onde a ciência e a técnica experimentavam notáveis avanços (o adjetivo notáveis deve, aqui, ser relativizado), uma revivescência do materialismo, que, privilegiando o saber científico como o único instrumento realmente capaz de desvendar os mistérios da natureza e dissipar as névoas da superstição (engendradas, em larga medida, pela religião, mas também pela metafísica), tornou-se, a um tempo, arrogante e ingênuo em sua tarefa de, desdivinizando essa mesma natureza (da qual cabia assenhorear-se através da técnica), fazê-la mais compreensível e, por conseguinte, também o homem, que nela estaria imerso. Proposta reducionista, da qual resultou limitar o homem à física, à química, à biologia - ciências que doravante explicariam o espírito, tornando-o não apenas indissociável do corpo (sem existência ulterior, portanto), mas um produto deste. Fisiólogos como Vogt, químicos como Jakob Moleschott (1822-1893) - que, em sua Teoria dos Alimentos para o Povo (1850), afirmava sem fósforo, não há pensamento e, em A Circulação da Vida (1852), analisava as repercussões da cal fosfatada (utilizada nos adubos) em nosso cérebro -, zoólogos como Ernst Haeckel (1834-1919) - para quem Deus era um mamífero gaseiforme - tomam o lugar dos filósofos e dos religiosos na empreitada de explicar a esse ser que erra no ininteligível o que ele é, afinal.
Para este materialistas alemães do século 19 - mecanicistas, deterministas e positivistas -, os fenômenos da vida reduzem-se a modos de atividades que convêm aos corpos albuminóides e a certas combinações complexas de carbono (Henri Arvon, O Ateísmo, Publicações Europa-América, 1974), a liberdade é uma ilusão, o amor de Páris por Helena não mais que o resultado da atração que um espermatozóide experimenta por um óvulo. - E hoje, neste final de milênio, como nos posicionamos frente a isso? Parece-me, para dizer o mínimo, que exageramos no antídoto: após comprovarmos que a ciência não tem o poder de nos tornar nem mais felizes nem mais sensatos (conforme, já no século 16, Montaigne observara) e que, para cada nova resposta por ela fornecida, abre-se um grande leque de novas questões (quanto mais avançamos no conhecimento, mais percebemos o quanto desconhecemos) - e, ainda, após nos convencermos de que a ciência, afinal, não tem todas as respostas (se formos suficientemente humildes, também admitiremos que não somos ilimitados em nossa capacidade de vir a descobri-las, assim como não o somos na de formular perguntas) -, repovoamos o mundo com toda a sorte de misticismos. Ou melhor, inventamos a perfumaria mística, o esoterismo de butique, a espiritualidade cibernética, e estamos nos comportando como os perfeitos idiotas que sempre fomos quando, querendo acreditar em alguma coisa, acreditamos em qualquer coisa, não importa de onde venha - se da nossa arrogante e, no fim das contas, pouca ciência ou das trevas da inerradicável ignorância de nós mesmos.





