Claudia Neves/Arquivo FolhaSei - embora seja a minha - o quanto tornar pública a intimidade tem apelo junto aos leitores, ainda que afirmem repugnar-lhes verem dadas à estampa as mazelas de outrem, as suas fraquezas, os seus vícios. Existe no animal humano - e, salvo sesquipedal engano, apenas nele - esse concupiscentia oculorum referida por Santo Agostinho (‘‘Resta-me falar da voluptuosidade destes olhos da minha carne’’), ou seja, uma natural propensão à curiosidade que, longe de exaurir-se mediante as seduções da vista, abrange todos os demais sentidos e toma o espírito, não raro transformando-se em patologia. Somos todos, em maior ou menor grau, voyeurs das vidas alheias.
Fundado no que acabei de expor, deleitei durante anos os meus leitores com relatos sobre o meu alcoolismo, a minha depressão, a minha angústia e todas as insanidades que estes males determinaram em mim - e sempre obtive bem razoável sucesso e garantida atenção nessa empreitada. Devo admitir que havia nisso algo de exibicionismo e muito de agressividade, porém, bem mais, era um meio eficiente de ocultação: à força de se mostrar em excesso, pode uma pessoa ficar tão transparente que passa despercebida (*). Além do que, cultivei com esmero a autocrítica constrangedora (para os outros), o que me garantiu a vantagem de ser mais cruel comigo mesmo do que poderia sê-lo qualquer crítica que me endereçassem. Tornei-me o tipo do sujeito que, após lhe ‘‘jogarem na cara’’ toda a sorte de defeitos que possui, comenta que a lista está incompleta e faz os devidos acréscimos. Uma pessoa assim, se se empenhar, pode chegar ao estágio de sublime indiferença moral a que chegaram os grandes monstros da História ou transformar-se num ser adorável pela sua sinceridade - como foi o caso, por exemplo, de Johannes Kepler, que dizia de si ter ‘‘em todas as coisas uma natureza canina’’, que incluía o gosto por roer ossos e crostas de pão, morder as pessoas com o seu sarcasmo e possuir ‘‘um horror canino pelos banhos, pelos perfumes, pelas loções’’. Não há como não receber com simpatia o que Kepler conta de si próprio, e o mesmo se aplica ao Agostinho das ‘‘Confissões’’ e a Montaigne - isso para mencionar mais dois nomes somente.
Não sei se com a mesma simpatia viam os fatos - digamos - incômodos que eu confessava, e já não me interresso tanto em sabê-lo. Hoje em dia, cultivo pouco o prazer de me expor em público, mas, para que não digam que o perdi de todo, tenho largamente informado que dentro em breve (e como a gente fica bobo em tais ocasiões) estarei casando novamente (‘‘de papel passado’’), desta vez com uma das garotas aparentemente menos ‘‘recomendáveis’’ da cidade. Alguém que até há pouco causava considerável impacto com o seu imaginário satânico, com os seus piercings (dois deles nos bicos dos seios, o terceiro em local bem mais íntimo), seu acervo de tatuagens grotescas espalhadas por todo o corpo (uma quantidade de demônios digna de uma visão do Inferno pintadas por Bosch), a maquiagem extravagante a la Marylin Mandon - enfim, alguém com um talento natural para o exibicionismo agressivo muito mais desenvolvido do que o meu. Isso tudo, acrescido ao fato de ela ter metade da minha idade, tem respondido pela opinião de que, finalmente, consegui endoidar de vez. E, no entanto, na intimidade, o que tenho, paradoxamente, é uma pessoa doce, tranquila, amorosa, que gosta de usar roupas antigas e pudicas (das quais se abastece no guarda-roupa da avó). De qualquer modo, esse lado caseiro de um romance público já é - ele, sim - um assunto de ordem exclusivamente pessoal...
(*) Por vezes, o que está bem diante dos nossos olhos é o que menos vemos, como o envelope que, no conto ‘‘A Carta Roubada’’, de Edgar Allan Poe, um experiente policial tenta encontrar. Prediposto a acreditar que a carta roubada estava muito bem escondida, o policial esquadrinha toda uma sala à sua procura, incapaz de perceber que ela esteve todo o tempo diante do seu nariz, sobre a lareira.

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