Arquivo FolhaInexistente nos anteriores, o século 20 viu surgir uma casta de poetas pensadores da própria poesia, que estabeleceram como prática corriqueira, incorporada ao fazer poético, o que outrora fora para uns poucos reflexão episódica e para a maioria, desconhecida ou considerada alheia a esse fazer. A essa casta pertencem, por exemplo, um T.S. Eliot, um W.H. Audem, um Octavio Paz e, no Brasil, um Drummond, um João Cabral de Mello Neto, os irmãos Augusto e Haroldo de Campos (cujas ensaísticas se revelam mais importantes e consistentes do que as suas produções poéticas), o nosso Paulo Leminski (que Deus o tenha no paraíso dos polacos e dos bebedores de vodca) - isso para ficar nuns poucos exemplos disponíveis numa plêiade de poetas sofisticados, proprietários de um arsenal teórico considerável e - o que lhes é mais característico - autores que fizeram da poesia o assunto mesmo da poesia.
Vai longe o tempo em que a poesia era definida como ‘‘o bálsamo harmonioso da alma’’, ‘‘íris das bolhas de sabão’’, e o poeta comparado a ‘‘chama que, apesar da neve,/ Ao pé de cada lápide cintila’’ (cito aqui, pela ordem, Coelho Neto, José Oiticica e Luiz Murat, que, embora tenham vivido neste século, conservaram dos precedentes uma noção demasiada etérea, romanticamente contaminada (da qual eu mesmo, devo confessá-lo, não estou de todo isento), do que fosse ser poeta e fazer poesia - o primeiro visto como um favorito das musas, a segunda como um território tão espiritualizado que nele só se poderia ingressar com pés de nuvem). Não é de hoje, o fazer versos ou prosa poética - e até a opção de não fazê-los - e coisa que passa pela semiótica, teorias da recepção, ‘‘desconstrutivismos’’ e toda a tribo de ‘‘ismo’’ errantes. Se isso colaborou para tomar melhor a poesia, é altamente discutível; porém, é inegável que tornou-se atividade cada vez mais intelectualmente e até pedante. Daí resulta que, se já na Roma antiga - conforme apontava Marcial - ninguém fosse mais cheio de si do que os maus poetas, hoje eles se mostram insuportáveis quando aliam o seu cabedal teórico (aqui no Brasil, isso é, via de regra, pouco mais ou menos equivalente ao tamanho da cabeça de um alfinete) a versos tão ordinários quanto pretensiosos. E não são poucos os que se encaixam neste perfil.
Penso, porém, que ao circo de mediocridades artísticas globalizadas, alta tecnologia e pouca felicidade, que, segundo prevejo, será esse trambolho chamado Terceiro Milênio, mostrar-se á um conveniente antídoto criar (sabe-se lá com que recursos) um estado de poesia amplo e irrestrito, onde ela seja antes uma atitude e uma mundivisão do que ofício de versejador, ourivesaria ou ócio de quem é afeito a desmontar relógios. Se tivesse que transportar para um manifesto o que preconizo, ficaria estabelecido que tudo é poesia ou nada é poesia, e recomendaria que se fizesse a primeira opção, elegendo como privilegiados objetos poéticos quaisquer coisas situadas entre um pince-nez e uma girafa, um canteiro de amores-perfeitos e um feixe de laser, uma clepsidra e uma constelação. Ficaria estabelecido e ainda que ninguém é obrigado a fazer poesia (e, em muitos casos, é até preferível que não o faça), mas seria um imbecil se não percebesse quantas coisas se lhe oferecem aos olhos como poesia em estado bruto - poesia aquém das palavras, muito adequada, aliás, à vida, que, no dizer de Nietzsche, é coisa infra-racional.
Talvez o fim da poesia seja o seu começo: o silêncio - e isso não cabe em fórmulas, não há instrumental teórico que o possa apreender. Faz-se poesia na esperança de vencer o silêncio e a morte; retorna-se ao silêncio quando se constata que cada um dos objetos do universo permanece intacto em sua poesia muda, ainda que faça barulho. Porém, entre extremo e outro, cria-se um outro universo com sua lógica própria, que é, em última instância, não ter lógica nenhuma - nenhuma que sirva para justificar ou explicar o que existe. Poesia sem os grilhões do sentido. Stop making sense.
Um homem está diante de uma árvore, de um rio, de uma nave espacial ou de um caroço de azeitona - enfim, de um léxico à espera da poesia de sua recepção. Eis a atitude, eis a poesia mesma, e o remédio para a nossa insignificância cósmica e para a nossa letargia espiritual. Eis o homem que bebe dessa droga adequada, e está vivo.

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