Arquivo FolhaDe início, cabe confessar que falarei sobre um assunto sobre o qual alego parcos conhecimentos, e só o faço porque em nosso País a ignorância, auxiliada pela incompetência, nunca foi óbice à sua livre expressão (o mesmo não se aplica necessariamente ao conhecimento, não raro incômodo). O outro motivo para esta minha empreitada é que, ao término de um estafante balanço de dez minutos tendo por objeto a vida nacional ao longo de 97, verifiquei, a exemplo de anos anteriores, o papel de destaque que a política e os políticos tiveram na maioria das conversas que jogamos fora. Não fosse esse assunto tão envolvente, não nos restaria muito a discutir que não fosse futebol ou Carla Perez. Sendo assim, e como homenagem aos homens públicos do nosso País (algum dia homenagearei também as mulheres públicas) - homens públicos, eu dizia, dentre os quais se incluem até mesmo aqueles que têm verdadeiro apego ao trabalho e se mostram realmente preocupados com a nação -, preparei uma breve e ligeiramente comentada antologia de máximas sobre a políticos, assinadas por alguns dos homens que melhor os compreenderam.
•Eça, por exemplo - este grande português de Póvoa do Varzim -, observava que ‘‘não há nada mais ruidoso e que vivamente se saracoteie com um brilho de lantejoulas de que a política’’- e não há por que duvidar disso, uma vez que, dentre os grandes interesses que a movem, estão os inerentes a esse ‘‘castelo de espuma que cintila’’(K.L. von Knebel), que é a vaidade.
•‘‘A política’’, dizia o nosso Medeiros e Albuquerque, ‘‘se parece tão frequentemente com a prestidigitação, que não é de admirar que algumas vezes se aliem.’’ - Conquanto uma tal parceria seja universal, louva-se nos políticos brasileiros o natural talento com que, ao longo da nossa História, fizeram as suas ‘‘prestidigitações’’ em cofres públicos, - e pensar que para José Bonifácio a política era ‘‘filha da Razão e da Moral’’...
•‘‘É princípio, já incontroverso, que a Honra em política (e nos departamentos adjacentes) é a arte de subordinar os escrúpulos às exigências do sucesso. Na religião dos ambicioso do poder não há sacrilégio em cantar a missa pela Bíblia de Satanás’’ (Eduardo Ramos).- No Brasil, pelo que se vê, os políticos conseguiram sublimar em tão alto grau os escrúpulos que os converteram em transcendente indiferença moral.
•Do mesmo Eduardo Ramos (1854-1923) - jornalista, poeta e prosador baiano hoje em dia (imerecidamente) pouco lembrado -, é o que segue, já sem necessidade de qualquer adendo: ‘‘É universalmente sabida a significação do plural de bom, no vocabulário dos homens de partido. Quando ele usa dizer que só os bons devem auferir os benefícios do domínio de seus compatriotas, está subentendido que o propinante é um destes. É assim que o egoísmo se impõe à preferência dentro do círculo minguado pela mistificação da virtude.
• Reconheço que, ao brindá-los com estas poucas frases, cometo injustiça com certos políticos, seja porque acabo de tratar até brandamente alguns deles, seja porque outros - em número muito mais reduzido - não as merecem. No segundo caso, porém, mais facilmente alivio minha consciência com a suspeita de que, afinal, só atinjo meia-dúzia de gatos-pingados - e estes são (agora sem o menor traço de ironia) os únicos dignos de homenagem, tanto mais porque, se alguma vez leram Voltaire, com ele concordarão que ‘‘a melhor política é ser honesto’’. Quanto aos demais, vale tudo o que acima transcrevi, com o acréscimo desta opinião do padre Júlio Maria (1850-1916): ‘‘Todo o mal do Brasil é que a política é uma profissão, mas os políticos não são profissionais’’. Que cada um de nós dê os nomes que melhor lhes cabem.

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