ReproduçãoAos 24 anos, o francês Blaise Pascal abandona a prática das ciências, nas quais tão precocemente se revelara genial, para dedicar-se ao Deus jansenista do bispo de Ypres - uma heresia rigorosa, na qual pouco espaço resta à esperança: nossa natureza impura nos impele para o mal e antecipadamente nos condena ao castigo eterno, destino ao qual escapariam uns poucos predestinados (há que lembrar que o jansenismo é tributário da leitura de Santo Agostinho a propósito do pecado e da salvação). Pascal carrega as marcas da doença e da fragilidade, o que o predispõe psicologicamente a depreciar o homem enquanto corpo, enquanto sede dos instintos e do erro, enquanto cósmica insignificância - ou seria isso verdadeiramente colocá-lo no seu devido lugar? ‘‘Que o homem, voltado para si próprio, considere o que é diante do que existe; que se encare como um ser extraviado neste canto afastado da natureza, e que, da pequena cela onde se acha preso, isto é, do universo, aprenda a avaliar em seu valor exato a terra, os reinos, as cidades e ele próprio. Que é um homem dentro do infinito? (‘‘Pensamento’’, II, 72, tradução de Sérgio Milliet). Pascal é um pensador trágico e sua angústia reconhece o fato de que sequer é possível situar o homem dentro desse infinito, isto é, oferecer-lhe uma referência, um lugar a partir do qual possa deduzir o seu próprio ser. A mesma escassez se estende à impossibilidade de apreender Deus, que na visão pascaliana - semelhante à da teologia negativa - é incognoscível e ‘‘absconditus’’. Mas ainda: nem mesmo é possível estabelecer se Deus existe.
‘‘Examinemos, pois, esse ponto, e digamos: ‘Deus existe ou não existe?’. Para que lado nos inclinaremos? A razão não o pode determinar: há um infinito que nos separa. Na extremidade dessa distância infinita, joga-se cara ou coroa, ou melhor, cruz e coroa. Em que apostareis? Pela razão nada podereis fazer; pela razão nada podereis desfazer. Não acuseis, pois, de falsidade os que fizeram uma escolha, já que nada sabeis.
‘‘Não; mas eu os acusarei de terem feito, não essa escolha, mas uma escolha, porque, embora o que opta pela cruz e o outro cometem igual erro, ambos estão em erro; o certo é não apostar’’.
Não obstante, Pascal sabe: ‘‘é preciso apostar. Não é coisa que depende da vontade, já estamos metidos nisso’’. Já estamos metidos nisso; e a fé, para o filósofo como para qualquer mortal, não constitui uma garantia contra a angústia, que deriva de nossa condição humana ante ‘‘o silêncio eterno desses espaços infinitos’’. - ‘‘Quantos reinos nos ignoram!’’
O autor das ‘‘Provinciais’’ faz, é verdade, o elogio do pensamento, atribuindo a ele a grandeza do homem (um ‘‘caniço pensante’’), mas é igualmente verdade que desconfie da razão: ela não é, em absoluto, razoável, contanto esteja habilitada a desautorizar a si mesma. - Eis aí um outro aspecto da angústia pascaliana: Pascal, mesmo após ter abandonado as ciências, continuou a ser um cientista, isto é, um racionalista; e seu racionalismo paradoxal choca-se contra a fé pela qual pretende viver. Não creio que Pascal fosse capaz de converter quem quer que seja à fé, não porque não a possuísse, mas talvez porque, em última instância, nada o autorizasse a acenar com as promessas de redenção. Eis o trágico neste genial pensador: a graça que ele almeja não depende dele, e não há como alguém saber se foi tocado por ela (sempre podemos nos iludir a esse respeito, é claro, e o quanto quisermos). Sem a graça - mais exatamente, sem a certeza da graça -, prossegue o homem como sempre foi: ‘‘um sujeito cheio de erro, natural e indelével... Nada lhe mostra a verdade. Tudo o ilude. Os dois princípios das verdades, razão e os sentidos, além de carecerem de sinceridade, iludem-se mutuamente. Os sentidos, com suas falsas aparências, enganam a razão; e essa mesma fraude que oferecem à razão recebem-na dela, por sua vez. Dupla fraude, sobre a qual poder-se-ia dizer, com igual ironia, o mesmo que Pascal disse das disputas em torno do que seja o soberano bem: ‘‘Estamos realmente bem avançados’’...

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