Wilmar Klein
Arquivo FolhaEm 1992, sob a influência das minhas leituras de certos filósofos afirmadores do acaso (Lucrécio, Montaigne, Nietzsche, entre outros), ocorreu-me, uma manhã, o desejo - que em meu espírito apresentou-se como irresistível - de comprar um par de dados, que fiz numa dessas lojinhas que vendem desde baralhos e minicalculadoras até defumadores e lúpulo para cerveja caseira. Com os dados no bolso do paletó, dirijo-me à editora onde trabalho e, ao abrir o primeiro jornal da pilha sobre a minha mesa, o que encontro são duas páginas comemorativas do sesquicentenário de nascimento do poeta francês Stéphane Mallarmé - justamente ele que tornou-se famoso, perante as vanguardas literárias do século 20, por ter escrito o poema Um Lance de Dados, onde decreta: Um lance de dados jamais abolirá o acaso. Como uma pequena epifânia, a coincidência (afinal eu nunca soubera que Mallarmé havia nascido naquele dia, há 150 anos) ao mesmo tempo alegrou-me e inquietou-me. Alegrou-me, pois, representando uma emergência do acaso, reiterou o significado que eu quisera atribuir ao meu recém-adquirido par de dados. Inquietou-me: e se o que eu chamo acaso fosse outra coisa? Não demorei, no entanto, a retomar a leitura de Nietzsche, Montaigne (que afirmava ser somente o acaso o seu senhor), Lucrécio etc., e esqueci a súbita inquietação.
Uns poucos meses se passaram e um certo dia percebo que havia perdido um dos dados do par. Na época, eu atravessava uma das minhas (infelizmente) frequentes crises depressivas, as quais têm o poder de reativar o meu alcoolismo, e o resultado foi eu internar-me, após muitas garrafas de vodca, num hospital psiquiátrico. Lá, alguns dias depois da minha chegada, foi internada uma garota particularmente atraente, vinda de Joinville. Era dependente de cocaína - uma droga, diga-se de passagem, pela qual nunca me interessei. Porém interessei-me - e bastante pela garota e, não obstante a nossa diferença de idade, recebeu favoravelmente a minha aproximação. (Não será demasiado lembrar que em situações nas quais as pessoas se acham fragilizadas física e emocionalmente - e tal era o caso dela e o meu - mais facilmente se mostram receptivas a aproximações que as convençam de que ainda são desejáveis e merecedoras de afeto.) E, se algo faltava para que eu decidisse apostar naquele relacionamento, foi sobejamente preenchido por uma coincidência (ou que outro nome queiram dar) tão incrível que, o contá-la temo que a tomem por invenção.
Num fim de tarde, após a janta (horrível como em todo hospital psiquiátrico público ), estando juntos eu e Lenira (digamos que fosse este o nome da garota), disse-lhe, casualmente, que costumava levar comigo um par de dados, mas havia perdido um deles - e mostrei-lhe o restante. Olhou-me de um modo estranho, depois sorriu e pediu-me que esperasse um instante. Foi então até a enfermaria das mulheres e retornou com uma pequena bolsa. Sentou-se e perguntou-me se eu sabia que ela costumava ter na bolsa não um par, mas um único e solitário dado. E, abrindo-a, apresentou-me esse dado - do mesmo tamanho do meu.
Cabe aqui um intervalo para considerar qual seria a possibilidade matemática de - especialmente naquelas circunstâncias - acontecer o que acabei de relatar e o quanto isso abalou então a minha convicção de que, em última instância, tudo acontece por acaso. Era acaso demais para ser admitido como tal: aquele encontro de dados pareceu-me profético.
Para encurtar a história: fomos viver juntos e teríamos sido infelizes para sempre se, após cinco meses, não nos tivéssemos separado em condições algo traumáticas (eu não percebera, no hospital, que Lenira era proprietária do ciúme mais patológico com que já me defrontei e não demorou para que a nossa vida em comum se transformasse numa versão caseira do inferno).
Pois bem, que conclusão eu tiro disso? Eis uma pergunta que não saberia responder, mas posso garantir-lhes que, embora acreditando no acaso, nunca mais levei dados comigo e muito menos confiei a eles a minha sorte.





