Wilmar Klein


Adivinhações
Você sabia que ...
O que tem barriga de pau, cabeça de ferro, vai na mata e dá um berro é espingarda?
Que a flor que as mulheres mais apreciam é a flor da idade?
Que a voz que ninguém gosta de ouvir é a voz de prisão?
Que o pé que pode explodir é o pé de guerra?
Que a arma que é usada com amor é a seta de cupido?
Que a diferença entre as pessoas que nunca pode ser tirada é a diferença de idade?
Que a boca que se enche de comida mas nunca come á a boca do fogo?
Que o que tem buraco na barriga e corda no pescoço é o violão?
Que o ponto que todos apreciam é o ponto facultativo?
Que a doença que pode dar nos olhos e também pode ser encontrada num rio bem acidentado é catarata?
Que o que nos tiram antes de recebermos é fotografia?
Que o que é verde em nascimento, branco é o seu estado e veste-se de luto para morrer é jabuticabeira?
Adivinhações...
Foi-se o tempo das adivinhações.
Já não existem Édipos caipiras.
Já não se conversa ao pé do fogo.
Quase ninguém mais faz biscoitos de polvilho.
Balas de ovos, nunca mais as encontrei.
Nem os garotos que trocavam gibis na fila do cine Curitiba.
Onde aqueles que jogavam bete na rua?
Os que roubavam frutas no quintal do vizinho,
sob pena de levarem tiro de sal no traseiro?
Onde os Natais e as Páscoas de antigamente?
Que fim levou o que eu já fui
e o que fomos?
De resto, as perguntas para as quais seria loucura esperar
resposta continuam sendo as mesmas de sempre.
Assim, por exemplo, a minha vida inteira ouvi pessoas mais pias
e provavelmente mais felizes do que eu repetirem que nada acontece por
acaso, e sempre me perguntei com que base o afirmavam.
Não obstante, a maioria de nós põe a sua esperança em que um
inefável Autor do universo saiba por que o fez, e a nós, sem o que tudo
seria irremediável acaso.
E talvez o seja...

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