Wilmar Klein
Arquivo FolhaA tarefa de gente moça, como disse o Paulo Leminski uma vez, é inventar o futuro, e a ela eu acrescentaria a de denunciar a hipocrisia dos mais velhos. É isso o mínimo que espero dos garotos e garotas aos quais me afeiçoei, porque com as pessoas da minha geração - que, em seu interior, envelheceram muito rapidamente - já não espero poder contar: esse pessoal, hoje, é deputado, vereador, executivo, doutor, em moldes pouco atraentes. Da rebeldia que nos animava quando éramos jovens, da energia colocada a serviço da crença de que éramos capazes de mudar a face do mundo (crença utópica, mas por isso mesmo bela), não restam nem pálidos vestígios. Meus companheiros de geração agora estão preocupados em multiplicar seus bens materiais, buscam a respeitabilidade pomposa e comicamente grave, conferem uma ridícula importância a tudo o que fazem e dizem. Suas mulheres - aquelas garotas que outrora pareciam tão descoladas hoje encaixam-se no perfil das peruas e geram mauricinhos e patricinhas arrogantes (certamente não é essa a juventude a que referi acima).
Quis para mim mesmo destino outro, não esse medíocre paraíso burguês, onde a simplicidade e a sinceridade (sem as quais não é possível amar realmente nem as pessoas, nem a vida) são trocadas pelo status, pela ostentação, bem como pela perda da paz de espírito (preço a ser pago por quem persegue riquezas). Talvez eu não tenha verdadeiramente aprendido a agir como adulto, e, no entanto, não posso ignorar a passagem do tempo pelo meu corpo. Porém, resignar-me a isso é algo que abomino e recuso; embora os sábios recomendem aceitar aquilo que não podemos modificar, não considerarei menos estúpidas e absurdas a velhice, a doença e a morte - essas três monstruosidades que nos roubam a mocidade e a própria existência.
Goethe disse da juventude que é uma embriaguez sem vinho. Preciso dessa embriaguez, mesmo que o vinho a produza, ainda que seja ilusória. Preciso da presença, da energia, da vitalidade, de mentes e corpos que o tempo não arruinou. É a vida em seu frescor o que vampirizo. Apraz-me também poder inventar um pouquinho o futuro, não aceito viver alheio ao meu tempo (conquanto despreze muita coisa que ele produz - e é forçoso admitir que isso se deve, em grande parte, a pessoas de minha geração -, o tempo presente é o único que temos): morreria se escolhesse viver no limbo onde estão guardadas as recuadas lembranças, pois não me disponho a reprisar minhas dores. Certamente estar tão próximo de pessoas jovens, conviver com elas nos mesmos ambientes, acarreta-me a assunção de papéis como o de irmão mais velho, conselheiro ou mesmo o de pai que alguns desses garotos e garotas gostariam de ter (ou seja, um sujeito que entendesse a sua linguagem, tivesse as referências que eles têm, apreciasse aquilo que eles apreciam e, principalmente, apoiasse o que consideram importante). Tais papéis, entretanto, não me desagradam, e não me engano quanto à sinceridade do afeto com que me retribuem.
Ironicamente, tenho um filho adotivo cujo comportamento, tanto mais se comparado com o meu, é, sob vários aspectos, irrepreensível. Tem agora 21 anos e uma vida independente; jamais usou drogas, pratica esportes e - coisa para mim incompreensível - gosta de usar terno e gravata. Por vezes, quando vem me visitar, digo-lhe, em tom de brincadeira, que é um desgosto para um pai como eu ter um filho que não bebe, não fuma, usa terno e ouve rock bem comportado. Por outro lado, penso que, a seu modo, ele é um sujeito original: num tempo como o nosso, em que o teor de loucura cresce a cada dia, ser careta é que é ser diferente. Reconhecê-lo, porém, não significa, de modo algum, uma adesão, até porque, se da juventude alguma coisa preservo, é a teimosia. Teimosia que - admito - é hoje crônica e algo patética.





