Wilmar Klein
Reprodução O que é a natureza!, costumava exclamar um meu tio-avô ante as paisagens que o deslumbravam. Mas, trocasse a exclamação extática por um belo ponto de interrogação, talvez não encontrasse resposta satisfatória, justamente porque - eis aí o paradoxo -ele, a exemplo das pessoas em geral, julgava saber muito bem o que é a natureza. Vejamos como essa convicção é frágil, para tanto recorrendo à autoridade das definições filosóficas da natureza conforme se acham no Aurélio: 1) natureza é o mundo visível, em oposição às idéias, sentimentos, emoções, etc.; 2) é o conjunto do que se produz no Universo independentemente da intervenção refletida ou consciente; 3) natureza é sinônimo de essência, entendida como o que constitui o cerne de um ser. Repare-se que nos dois primeiros casos a definição de natureza é dada através de uma oposição e de uma exclusão, ou seja, define-se a natureza pelo que ela não é: não é idéia, nem emoção, nem sentimento, e também não é intervenção refletida ou consciente - valendo dizer: a natureza é tudo aquilo que não é criado pelo homem. Já na terceira definição encontramos o que talvez seja a principal função da idéia de natureza: avalizar o ser. Entretanto, como ser é uma palavra suficientemente abrangente para designar qualquer coisa existente, perguntaria: qual é o cerne de um ser denominado pedra? O cerne de um ser chamado girassol? O cerne do ser ornitorrinco? E afinal: alguém alguma vez chegou a definir satisfatoriamente o que seria o cerne de um ser humano e onde ele estaria localizado?
Pressuposto que o homem não o seja, vejamos - ainda segundo o dicionário - o que é natural: 1) de, ou referente à natureza; 2) produzido pela natureza; 3) em que não há trabalho ou intervenção do homem. As duas primeiras definições do adjetivo remetem à noção de natureza, que, como vimos, é precária; a terceira explica-o pelo que não é: artifício, ação humana. E, no entanto, seria o caso de indagar por que a natureza não pode, também ela, ser artificiosa, tanto mais que é, segundo se diz, a mãe da invenção. Recordamos este pensamento de Pascal: O hábito é uma segunda natureza que destrói a primeira. Mas que é a natureza? Por que o hábito não é natural? Receio muito que essa natureza não seja ela própria senão um primeiro hábito, assim como o hábito uma segunda natureza (Pensamentos, II, 93 - tradução de Sérgio Milliet, Abril Cultural, 1979, 2ªed.). Hábito, isto é, algo adquirido, portanto artificial.
Obviamente, ao questionar a noção de natureza, não se pretende questionar aquilo que, em sua singularidade, compõe o que chamamos de natureza: árvores, flores, montanhas, rios, animais, etc. Mas talvez seja o caso de colocar em xeque a noção de uma natureza divinizada, uma natureza como entidade, como uma anima mundi. É bem verdade que essa visão da natureza tem uma grande utilidade psicológica, e é por isso mesmo que é tão persistente. Confira, a título de fecho dessas divagações, este trecho do filósofo francês Clément Rosset: A idéia de natureza - qualquer que seja o nome com o qual ela encontra, dependendo da época, um meio propício de expressão - afigura-se como um dos maiores obstáculos que isolam o homem do real, ao substituir a simplicidade caótica da existência pela complicação ordenada de um mundo.
Nesse aspecto, sua função essencial não é tanto ser um marco naturalista, mas, de maneira geral, servirá de marco: configurar uma instância perene adequada para o homem que acredita estar nela mergulhado consolar-se de não ser senão instância frágil e insignificante, e reunir para alcançar essa configuração o diverso em um sistema que, psicologicamente falando, assegura ao homem aconchego tão tranquilizador quanto a presença de uma mãe (A Antinatureza: elementos para uma filosofia trágica, tradução de Getulio Puell, Rio de Janeiro, Espaço e Tempo, 1989).
Não por acaso a expressão Mãe Natureza é de uso universal.





