Wilmar Klein
Arquivo FolhaBasta um ligeiro sobrevôo pelas propostas de alguns dos livros mais vendidos no país atualmente para que se perceba a que vêm: em As Sete Leis Espirituais do Sucesso, o guru indiano Deepak Chapra prega que o sucesso é consequência de uma mudança interior e dá as dicas para que ela aconteça; em O Caminho do Mago, o mesmo autor imerge o leitor nas brumas da lenda do rei Arthur para proporcionar-lhe uma alegoria sobre a busca do autoconhecimento; em Sem Medo de Viver, Zíbia M. Gasparetto aborda os meios através dos quais se conquista a felicidade espiritual; Vera Lúcia M. de Carvalho, em Violetas na Janela, coloca como protagonista da história uma jovem morta aos 19 anos que descreve as suas experiências de além-túmulo; o título do livro do psiquiatra americano Brian L. Weiss, A Cura Através da Terapia de Vidas Passadas, já é suficiente para explicitar seu conteúdo (bem como seu caráter pouco científico), e em outra de suas obras, Só o Amor é Real, procura demonstrar que a proximidade das pessoas decorre da convivência em encarnações anteriores (ah, sim... quase ia me esquecendo: em Muitas Vidas, Muitos Mestres, o mesmo Weiss tenta convencer-nos da validade da regressão como método terapêutico). Isso, é claro, sem falar em O Monte Cinco, de Paulo Coelho, cujo personagem central é o profeta Elias; Almas Gêmeas, em que Mônica Buonfiglio ensina o leitor a identificar a sua cara-metade e com ela ser feliz para sempre; e A Profecia Celestina, de James Redfield, romance new age em que um intelectual busca o seu crescimento espiritual. Eis aí uma pequena amostra do tipo de literatura que, nestes anos 90, faz sucesso no Brasil, mas... e a Literatura, o que é feito dela? Em todas as listas de best sellers publicadas em jornais e revistas que consultei para escrever estas linhas, não encontrei um único grande autor. Vejamos: John Grisham (O Sócio), Ken Follett (O Terceiro Gênio) e Frederick Forsyth (Ícone) são, na melhor das hipóteses, competentes contadores de histórias (até porque são narradores profissionais), mas todos os três estão muito aquém do que poderíamos chamar de grande escritor (e o mesmo vale para o Carl Sagan de Contato - um autor muito mais instigante quando produz textos de não-ficção - e Josten Gaarder - cujo didatismo merece ser louvado, desde que se faça a ressalva de que lhe faltam outras virtudes literárias). Conclusão: temos, de um lado a literatura de auto-ajuda e/ou pseudo-esotérica (e nesse balaio cabem desde psiquiatras alternativos até gente que diz ver anjos e gnomos em toda parte, passando por teósofos, gurus orientais com belas contas bancárias e adeptos do espiritismo) e, de outro, ficção rasteira, produzida segundo as regras de marketing. Em ambos os casos, a qualidade literária deixa a desejar (e por vezes não há nenhuma a considerar), comprovando assim o irresistível apelo da mediocridade.
Pois bem, a coisa fica ainda mais séria quando pensamos em quantos autores verdadeiramente consistentes surgiram nesta segunda metade do século, e mais ainda se os cotejamos com os monstros da história da literatura, com Homero, Virgílio, Dante, Cervantes, Shakespeare, Camões, Goethe... Mesmo levando em conta nomes respeitáveis como Joyce, Thomas Mann, Faulkner, Beckett, Borges, entre outros, será forçoso reconhecer que este nosso século foi menos literário do que os quatro últimos que o precederam. Em contrapartida, progredimos notavelmente em matéria de desespero, insanidade, estupidez e vazio espiritual; e é por isso mesmo que estamos cada vez menos dispostos a aceitar muita realidade. Melhor, portanto, povoar os céus com objetos não-identificados e a terra com fadas, gnomos, anjos da guarda e quetais - isso tudo mais um vasto cardápio de drogas (lícitas e ilícitas) e a realidade virtual. Hoje, de bom grado se dispensa qualquer literatura que tenha por alvo a realidade se retoques (a menos, é claro, que essa realidade se afigure exótica, distante da realidade do leitor), que não a pasteurize ou fantasie, que traduza a dimensão trágica do homem, este ser cuja finalidade (se alguma existe) continua a ser um indecifrável enigma, um ponto de interrogação disfarçável com o auxílio dos instrumentos da alienação. E entre esses instrumentos se inclui certamente a má literatura desse final de milênio.





