ReproduçãoJean CocteauAté o dia 24 de novembro, acontece em São Paulo, no Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares Penteado, a exposição ‘‘Le Monde de Jean Cocteau’’, que reúne 389 obras do poeta, romancista, dramaturgo, cineasta, pintor, desenhista, cenógrafo etc. - um artista multimídia avant la lettre. Embora não acredite muito nisso, penso às vezes que a minha fascinação pela obra de Cocteau se deve a uma afinidade zodiacal: ele nasceu em 1889, no dia 5 de julho; eu, 66 anos depois, no dia 4 de julho. O poeta francês (independentemente da atividade que estivesse exercendo, ele sempre foi, antes de tudo, um poeta) era um canceriano típico, ou seja, um sujeito meio deslocado neste nosso mundo sublunar. Cocteau acreditava na beleza (quantos artistas, hoje em dia, são capazes de acreditar nisso?) - beleza resgatável sob a forma de epifania ou de um mito a ser retrabalhado. Não por acaso, foi um autor que teve um pé na vanguarda e outro no classicismo, o que é coerente, pois, ao contrário do que frequentemente se pensa, é impossível ser moderno fazendo tabula rasa da herança clássica. O que é necessário - isto sim - é uma constante atualização dessa herança. Era o que fazia Cocteau, leitor dos trágicos gregos (veja-se, por exemplo, tal influência remodelada em sua peça ‘‘Antigone’’, de 1922, e em seus filmes ‘‘Orfeu’’, de 1950, e ‘‘O Testamento de Orfeu’’, de 1960), assim como os clássicos franceses de outras literaturas.
Particularmente, não aprecio o Jean Cocteau autor de máximas, as quais com alguma assiduidade ainda frequentam os dicionários de citações e as seções a elas dedicadas em revistas e jornais. E, no entanto para o que se convencionou chamar de ‘‘grande público’’, é hoje a face mais conhecida do artista (pelo menos no Brasil). Nada a estranhar, pois, salvo algumas exceções, esse sempre foi o Cocteau cultivador do bom senso e, portanto, o mais facilmente digerível. Em contrapartida, agrada-me muito o cineasta Jean Cocteau, realizador de seis filmes entre 1930 e 1960. O primeiro - ‘‘O Sangue de um Poeta’’- e o último deles - ‘‘O Testamento de Orfeu’’ (que, diga-se de passagem, tinha um elenco dos mais interessantes: além de Jean Marais - que foi amante de Cocteau - e do próprio cineasta, incluía o pintor Pablo Picasso, Yul Brynner, a escritora Françoise Sagane e Brigitte Bardot) - estes filmes, eu dizia, foram exibidos em Curitiba, durante uma mostra de clássicos franceses, há dois ou três anos, e, que eu sabia, é tudo o que deste diretor notável se viu em tela grande por aqui. (Uma dica: ‘‘A Bela e a Fera’’ - versão extremamente poética da famosa história, que ele realizou em 1945 - chegou a ser lançado em vídeo no Brasil, há mais ou menos sete anos, e vale a pena ‘‘garimpá-lo’’ nas lojas que trabalham com fitas usadas.) Cocteau realizou ainda ‘‘L’Aigle à Deux Têtes’’, de 1948; ‘‘Les Parents Terribles’’, do mesmo ano; e ‘‘Orfeu’’, de 1950. Quanto a ‘‘O Sangue de um Poeta’’- que combina surrealismo de alta densidade poética e escancarado erotismo homófilo -, é um filme que eu incluiria, se não numa lista dos 10 melhores da história do cinema, numa lista dos mais estimulantes. Visto hoje em dia, continua desconcertante, moderno, instigante e, acima de tudo, profundamente belo. Não creio que mesmo um cineasta alternativo atual se arriscaria a fazer um filme como este. Sem contar, é claro, que seria um tremendo fracasso comercial.
Já o Cocteau poeta, o Cocteau dramaturgo, eles nos parecem, neste final de século, perfeitamente assimiláveis, quando não superados. Sob certos aspectos, no final de sua vida (morreria em 1963), o poeta e o dramaturgo eram bem assimiláveis, tanto é que foi eleito para Academia Francesa de Letras (o que de modo algum desmerece a sua poesia e o seu teatro, cujas qualidades não se medem por serem mais ou menos acessíveis, reconhecidas ou não pelas instituições culturais). Porém, especialmente no período entre as duas guerras mundiais, Cocteau desempenhou um extraordinário papel de animador cultural e não seria exagero dizer que ‘‘satelizou’’ em torno de si a vida literária e artística do período.
François Truffaut enfatiza em seu livro ‘‘Os Filmes da Minha Vida’’ (onde analisa ‘‘O Testamento de Orfeu’’, que não é outro senão o testamento espiritual do poeta-cineasta) a generosidade de Cocteau para com os novos artistas (escritores, pintores, escultores, atores etc.), pois eles, segundo o artista, estavam se expondo, convivendo com a possibilidade do fracasso, e isso exige coragem. Oferecia-se, portanto, a recomendá-los, escrevendo para eles prefácios, catálogos, críticas favoráveis. Também nessa época, era um personagem um tanto incômodo para França conservadora: não fazia o menor esforço para dissimular o seu homossexualismo e a sua dependência do ópio (que começou a usar em 1923, após a morte de seu amante, o poeta Raymond Radiguet). Teve, é claro, inimigos - não raro movidos pela inveja e pelo preconceito. Cocteau, no entanto, está bem longe da imagem do poeta ‘‘louco’’. Não se espere encontrar nele uma reedição de Lautréamont (pseudônimo literário de Isidore Ducasse, o autor dos ‘‘Cantos de Maldoror’’): a ousadia de Cocteau não era tipo delirante e suas transgressões nunca perderam de vista a beleza. Tinha, como disse antes, um pé na vanguarda e outro numa tradição respeitável, ‘‘canônica’’. E como o próprio Cocteau escreveu: é preciso saber ‘‘até que ponto se pode ir longe demais’’.

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