‘‘O Abraço’’, de Alfredo Ceschiatti/ReproduçãoObra que compartilha do espírito dos ‘‘Night Thoughts’’, do inglês Edward Young (1683-1765), o mais influente representante da chamada graveyard poetry (ou seja, a poesia pré-romântica da noite e dos túmulos), as ‘‘Noches Lúgubres’’ continuam sendo um problema bibliográfico não resolvido. Publicadas entre as obras do espanhol José Cadalso y Vázques (1741-1782), diferem tanto das ‘‘Cartas Marruecas’’ as quais são, sem sombra de dúvida, obra de Cadalso, admirador de Montesquieu e partidário da Ilustração francesa - que fica difícil atribuí-las ao mesmo autor. No entanto, foi o que ocorreu, tendo como respaldo um fato biográfico: Cadalso era apaixonado pela atriz Maria Ignacia Iba¤ez e, quando ela morreu, ficou tão enlouquecido que chegou a fazer uma tentativa de exumação do cadáver, para ficar com ele. Otto Maria Carpeaux, em sua monumental ‘‘História da Literatura Ocidental’’ (Rio de Janeiro, Edições O Cruzeiro, 1961), considera: ‘‘Talvez as ‘Noches Lúgubres’, descrição impressionante da tentativa, fossem escritas por um anônimo impressionado pelo episódio; talvez o próprio Cadalso tenha mudado de estilo com o assunto: em todo caso, esses ‘Night Thoughts’ realmente ‘realizados’ não deixam de ser um fascinante, embora repulsivo sintoma da mentalidade da época pré-romântica’’ (1). Em tempo: José Cadalso y Vázquez, ao que tudo indica, deve se ter recuperado de sua loucura, pois morreu como oficial, tombando valorosamente na luta pela fortaleza de Gibraltar.
Quanto à sensibilidade mórbida, o poeta espanhol acima comentado é semelhável ao italiano, exilado na Inglaterra, Dante Gabriel Rossetti (1828-1882). Poeta de primeira e pintor de méritos discutíveis, foi, em meados do século 19 - juntamente com outros pintores, como William Holman Hunt e John Everett Millais (este, sim, um artista dos mais interessantes) -, fundador da ‘‘Pre-Raphaelitic Brotherhood’’, origem do movimento estético pré-rafaelita, que cultuava a beleza italiana, em especial a do ‘‘Quattrocento’’, representada pela arte de Filippo Lippi, Perugino e Botticelli. Místico e sensualista, Rossetti conferiu grande força pictórica aos seus poemas, como se pode ver, por exemplo, em sua ‘‘Blessed Damozel’’ (‘‘The blessed Damozel leaned out/From the golden lear of Heaven;/ Her eyes were deeper than the denth/Of waters stilled at even;/She had three lilies in her hand,/And the stars in her hair were seven’’) e em ‘‘ House of Life’’. Esta última obra vem acompanhada de uma história macabra: quando a mulher de Rossetti, Elizabeth Eleanor Siddal, morreu, ele colocou no caixão o manuscrito ainda inédito do poema. Sete anos depois, mandou enxumar o corpo da arma para recuperar e publicar ‘‘House of Life’’. Quem ler a obra concordará que a poesia inglesa lucrou com a exumação (2).
(1) Carpeaux, op. cit., lembra que os ‘‘Night Thoughts’’, de Young, foram traduzidos tardiamente na Espanha, em 1789, por Juan de Escaiquiz.
(2) Outro tipo de exumação - exumação crítica - foi feita em relação à irmã de Dante Gabriel Rossetti, Christina Georgina Rossetti (1830-1894), cujo talento foi eclipsado, durante sua vida, pelo do irmão famoso. No entanto, graças a admiradores como Swinburne, Saintsbury, De la Mare, entre outros, foi colocada em seu merecido lugar, qual seja o de maior poetisa religiosa do anglicanismo. Lamento não ter comigo os textos dos poemas ‘‘Sleep at Sea’’,‘‘Avent’’, ‘‘Goblin Market’’, que se situam entre os seus melhores trabalhos, porém transcrevo esta ‘‘Canção’’ de Christina Rossetti, traduzida por Manuel Bandeira (em ‘‘Antologia Poética’’, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1990, 20ª ed.): ‘‘Em minha sepultura,/Ó meu amor, não plantas/Nem cipreste nem rosas;/Nem tristemente cantes./Sê como a erva dos túmulos/Que o orvalho umedece./E se quiseres, lembra-te;/Se quiseres, esquece./Eu não verei as sombras,/Quando a tarde baixar;/Não ouvirei de noite / O rouxinol cantar./ Sonhando em meu crepúsculo,/Sem sentir, sem sofrer,/Talvez possa lembrar-me,/Talvez possa esquecer.

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