Wilmar Klein
Arquivo FolhaQue se pode
esperar de bom de um
dia que começamos
pela manhã, levantando
da cama?Em algum lugar do folclore anglo-saxão abrigam-se estes singelos versinhos: Por falta de um prego, perdeu-se a ferradura;/Por falta de uma ferradura, perdeu-se o cavalo;/Por falta do cavalo, perdeu-se o cavaleiro;/Por falta do cavaleiro perdeu-se a batalha;/Por falta da batalha, perdeu-se o reino. Ou seja, perdeu-se o reino por falta de um prego. É o que os modernos estudiosos da ciência do caos chamam de dependência sensível das condições iniciais e os metereologistas, algo jocosamente, batizaram com o nome de Efeito Borboleta, isto é, a noção de que uma borboleta agitando o ar hoje em Pequim pode modificar no mês seguinte sistemas de tempestades em Nova York (James Gleick, Caos: a criação de uma nova ciência, tradução de Waltensir Dutra, Rio de Janeiro, Campus, 1991, 4ª ed.).
Obviamente, o caos - na acepção aqui empregada - não é uma invenção dos cientistas deste século, pois sempre esteve presente nas coisas mais prosaicas, como, por exemplo, no despejar de uma bandeira, na coluna ascendente da fumaça de um cigarro, no gotejar de uma torneira, no repicar de uma bola de pingue-pongue sobre uma mesa, desde Aristóteles convencionou-se que não haveria ciência do acidente, do aleatório: ou a ciência dos séculos que nos precederam abdicava da consideração da aleatoridade, ou não haveria ciência.
Entretanto, na virada do século passado para o nosso, um matemático francês ocupado com os estudos do sistemas complexos, Jules Henri Poincaré, observou com muita lucidez em sua obra Ciência e Método: Uma causa muito pequena, que nos passa despercebida, determina um efeito considerável que não podemos deixar de ver, e então dizemos que o efeito é devido ao acaso. Se conhecêssemos exatamente as leis da natureza e a situação do universo no momento inicial, poderíamos prever exatamente a situação desse mesmo universo no momento seguinte. Contudo, mesmo que as leis naturais já não tivessem segredos para nós, ainda assim poderíamos conhecer a situação aproximadamente. Se isso não permitisse prever a situação seguinte com a mesma aproximação, seria tudo o que pretenderíamos, e diríamos que o fenômeno tinha sido previsto, que é governado por leis. Mas nem sempre é assim; pode acontecer que pequenas diferenças nas condições iniciais produzam diferenças muito grandes nos resultados finais. Um pequeno erro nas primeiras produzirá um erro enorme nas últimas. A previsão torna-se impossível (págs. 28/29).
Poincaré não teve propriamente seguidores, e pouco tempo bastou após sua morte para que os seus escritores fossem esquecidos, salvo por uns poucos estudiosos isolados, como, nos EUA dos anos 20 e 30, o matemático George D. Birkheff, que por um custo período foi professor (no MIT) de Edward Lorenz - este alinhado entre os precursores da teoria do caos (defendendo que qualquer sistema físico que se comportasse de maneira não-periódica seria imprevisível- Gleick, op.cit.). Antes de Lorenz, porém, NorbertWiener, o pai da cibernética, já adivinhava os estragos que pequenos detalhes podem fazer e, por conseguinte, a importância destes. Afirmava este descendente do sábio Maimônides: Um furacão é um fenômeno extremamente local e detalhes aparentemente sem grande importância podem determinar seu caminho exato.
Têm os vienenses um provérbio que diz: Que se pode esperar de bom de um dia que começamos pela manhã, levantando da cama? Pode, é claro, dar tudo errado, mas isso não será consequência de uma lei sinistra como a de Murphy. Cabe, pois, acordar de vez e, à medida em que as coisas forem acontecendo e se avolumando, perguntar-nos se, inadvertidamente, não estamos sofrendo as influências do Efeito Borboleta. Com a condição de ressaltar que acaso por acaso, também existem os felizes acasos, ou, dito de forma mais científica, dependências sensíveis das condições iniciais que vêm nos favorecer.





