Wilmar Klein
Arquivo FolhaAssim a revista A Scena Muda nº 197, de 1º de janeiro de 1925 (preço de capa: um mil réis), publicada no Rio de Janeiro pela Companhia Editoria Americana, descreve o início do filme O Aeronauta, produzido pela First National e estrelado por Buster Keaton e Phillys Haver:
Viu-se no escuro. Accendeu um phosphoro e foi abrir uma porta... Um esqueleto! Recuou e foi abrir outra porta ... Satanaz fumegante surgiu-lhe à frente... Corre a uma terceira... Surge um dragão terríve!
E ele, apavorado, quer recuar mas falta-lhe o chão sob os pés e sente-se precipitado no vácuo!
Deslisou por uma calha e foi cahir em plena calçada!
Ficamos sabendo, então, que Buster está em Luna Park, o parque de diversões de Nova York.
Pois bem... ocorre-me que o estar-do-mundo é um pouco como os breves parágrafos acima transcritos. Vejamos... o homem-em-si é um ser destinado à errância no ininteligível, está no escuro. O homem, então, busca uma luz, ainda que débil: pode ser a luz da religião, a luz da ciência, a luz da filosofia... Acende, por assim dizer, um fósforo. O que, entretanto, vê à sua frente é o absurdo da existência e a morte. O que sente é o medo, criador de todas as grandes superstições. Tenta entender o que vê e o que sente, mas, se for bem honesto, reconhecerá que falta-lhe o chão sob os pés, sente-se precipitado no vácuo. Esse vácuo é o da errância, da ininteligibilidade, a decorrência do caráter infra-racional do mundo.
E o homem: Talvez, ele tenha sido lançado ao acaso sobre um ponto da superfície da terra, sem que se possa saber nem como, nem porquê; semelhante a esses cogumelos que aparecem de um dia para o outro ou a essas flores que circundam os fossos e cobrem as muralhas (La Mettrie, Lhomme machine).
Assim, o homem busca deslizar por uma calha, isto é, busca alguma coisa que o aliene da realidade incompreensível do mundo (o qual, segundo Merleau-Ponty, não é nada que uma explicação possa tornar mais claro), alguma coisa que lhe proporcione a ilusão de segurança, algo que possa usar como droga (não importa se é droga química, se é religião, trabalho, ciência, filosofia, etc). O homem busca uma calçada, ou seja, chão firme para pisar, referências (as quais ele próprio tem que estabelecer, pois como tais não existem por si mesmas), enfim, coisas que lhe permitam movimentar-se no caos.
Desse modo, pode acontecer que os conjuntos de referências nos quais se refugiam tornem-se para alguns homens semelháveis a um parque de diversões (algumas delas bem macabras e outras completamente sem graça). Passam a negar o que encontram atrás das portas, ou preferem acreditar que tudo não passa de um jogo. E talvez o seja mesmo, com a condição de se aceitar que as regras desse jogo são desconhecidas. Temos a intuição do jogo (somos, sob esse aspecto, o homo ludens), mas não sabemos que jogo é esse, e nunca conhecemos quem ganhasse uma partida, apesar de certos lances aparentemente bem-sucedidos.
Mas, pensando melhor... sabemos da existência dos vermes, e a eles parece restar o prêmio desse jogo - prêmio que somos nós mesmos, quando a vida nos abandona. E então voltamos ao escuro no qual sempre vivemos, o que me leva a concordar com Nietzsche quando diz que a vida é uma forma muito particular de morte.





