Arquivo FolhaEm 1821 são publicados na França os três volumes in-8 de ‘‘Les Farfadets’’ (‘‘ou todos os demônios não são do outro mundo...’’), livro tão estranho quanto seu autor, que se apresentava como Alexis-Vincent-Charles Berbiguier de Terre-Neuve-du-Thym, informando ser ‘‘nativo de Carpentras, habitando em Avignon, atualmente domiciliado em Paris...’’. Para poder ser publicada, a obra (de 1.400 páginas, interessantes não apenas pelo texto, mas também pelas várias ilustrações representando os ‘‘farfadets’’, que é como os seres demoníacos se acham ali denominados) precisou ser revisada por Pascal Brunet e Grançois-Vincent Raspail, que dela expurgaram os muitos erros de ortografia e de gramática. O fato de Brunet ser advogado não deixa de constituir uma ironia, pois, para Berbiguier, os médicos, os estudantes, os farmacêuticos e os advogados figuravam entre os principais adeptos de uma sociedade ‘‘infernólico-diabólica’’ (sic) que lhe cabia desmascarar.
‘‘Maníaco iletrado’’, mas também um ‘‘moderno hierofante’’ - eis como o ocultista francês Stanislas de Guaita a ele se refere em seu livro ‘‘O Templo de Sat㒒. Porém, esclarece: ‘‘... Berbiguier não é um louco como os outros; sua loucura tem isso de particular: funda-se na percepção - é bem verdade que completamente distorcida e indireta - de um mundo real - que as pessoas sensatas não conhecem...’’ E, mais adiante, explica a loucura do autor de ‘‘Les Farfadets’’, o qual seria ‘‘vítima de um enxame de larvas, e atribui essa perseguição a feiticeiros metamorfoseados em monstros de toda espécie e tamanho. O exame de suas gravuras é curioso sob esse ponto de vista; aqueles que não têm olhos feitos para o astral podem, nesse espelho, estudar a natureza protéica de larvas que tomam, com inconcebível flexibilidade, as formas mais paradoxais e diversas; basta que o possesso, a quem sua presença horripila, tenha a idéia ou obsessão de uma figura hedionda para que as larvas imediatamente lhe tomem a forma: é uma alucinação que se materializa, um pensamento que se objetiva e toma a forma da substância plástica ambiente’’ (tradução de Celina C. Sales, São Paulo, editora Três, 1983).
Autodenominado ‘‘o flagelo dos duendes’’, Berbiguier vê demônios e feiticeiros por toda parte, sua cruzada é contra o inferno e suas criaturas. Sem dúvida, faria sucesso nos tempos da Inquisição, cujas fogueiras gostaria de ver reacesas, mas é um homem do século 19 e, como tal, ridicularizado e perseguido por aqueles mesmos a quem ataca, ou seja, os profissionais liberais e os estudantes que pertecem à tal sociedade ‘‘infernólico-diabólica’’. Entretanto, nada parece desanimar o autor de ‘‘Les Farfadets’’, que ensina como reconhecer os sinais exteriores do ‘‘farfadetismo’’ (barulho de grandes pássaros batendo as asas, retumbantes passos de monstros invisíveis, o vento gélido e intenso que se manifesta em recintos fechados etc.) e alerta as mulheres de Paris contra os ‘‘animais-farfadets’’, ou seja, os gatos, seres da ‘‘raça dos tigres’’ que outrora eram companheiros das feiticeiras.
Alexis-Vincent-Charles Berbiguier, que louva a ‘‘prudência’’ e a ‘‘justiça’’ dos inquisidores, que reza a Deus para que proliferem os bosques sobre a Terra, de modo a não faltar lenha para alimentar as grandes fogueiras que exterminarão os duendes, gratifica-se de maneira antecipada e comovente pelo livro que dará à luz: ‘‘estou muito satisfeito porque meus pensamentos são compartilhados por um apóstolo da fé cristã; é por isso que me sinto na obrigação de não perder um sermão... Meu livro estará repleto de matéria que os pregadores poderão consultar quando, no silêncio do escritório, escreveram seus discursos. Eles me deram matéria para dissertações; orgulho-me de retribuir-lhes com juros... Que prazer novo, quando for a um sermão, ouvir-me citado pelo pregador, como citam São João, São Marcos, São Mateus ou São Paulo!’’
P.S.: É preciso redescobrir esse Berbiguier, que, até onde sei, nunca foi traduzido em língua portuguesa. Seria uma delícia ler na íntegra ‘‘Os Farfadets’’; e, quanto às gravuras do livro, poderiam servir de motivos para as camisetas do pessoal que curte heavy, death metal e quetais.

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