Wilmar Klein
Arquivo FolhaCom que leviandade se diz, por exemplo, que Deus é amor...Não temos nenhuma noção do Ser Supremo a não ser a que nos advém da reflexão sobre as nossas próprias faculdades. Ao escrever isso em sua Investigação sobre o Entendimento Humano, o filósofo escocês David Humes de certa forma fazia eco - talvez sem disso se dar conta - a Santo Agostinho, que dizia: Os homens, acreditando pensar em Deus, de quem não têm idéia, pensam em si mesmos. Tais constatações parecem-me tão razoáveis que o filósofo ateu poderia subscrever a do santo e vice-versa (repare-se que, levando um pouco mais adiante o pensamento de Agostinho, chegaríamos à conclusão aparentemente blasfema de que Deus, como o homem O entende, é uma criação do próprio homem, se não necessariamente à sua imagem e semelhança - Ele não merece tal ofensa -, quase sempre segundo as suas necessidades). Seja como for, rios de tinta e montanhas de papel e de outros suportes foram gastos para traduzir o que os homens acreditam pensar sobre Deus.
Mas, afinal, em que se baseia essa gente? O que a autoriza a emitir tantas opiniões e mesmo legislar sobre o que não conhece? Com muita razão, Montaigne observa num de seus ensaios: Quando dizemos que a infinidade dos séculos, passados e futuros, representa apenas um instante para Deus; que Sua bondade, Sua sabedoria, Seu poder estão em Sua própria essência, fala a nossa boca, mas a nossa inteligência não entende. Com sua inteligência (e também com sua estupidez), o homem será sempre capaz de dizer por que crê, mas será igualmente incapaz de precisar o objeto de sua crença.
Como nunca fui (nem de mim exigi que fosse) uma pessoa comprometida com a coerência (pois é ela uma forma de estagnação incompatível com a vida), não posso exigi-la de outras pessoas, por mais doutas e graves que sejam, mas, ainda assim, bem que gostaria que Agostinho, coerentemente com a sua afirmação de que os homens não têm idéia de Deus (e ele, o bispo de Hipona, não seria exceção), não tivesse escrito com tanta familiaridade sobre Ele.
Com que leviandade se diz, por exemplo, que Deus é amor ou, como Einstein, que ele é sutil mas não malicioso! O que sabemos de Deus para que possamos discorrer sobre Sua natureza, sobre a Sua essência ou sobre a Sua sutileza? Mal e porcamente sabemos de nós mesmos, e, no entanto, a nossa pretensão é desmedida. Devíamos lembrar de Wittgenstein - o do Tractatus Logico-Philosophicus -, das suas colocações sobre os limites da linguagem e, afinal, aceitar o fato (eu, pelo menos, o tenho como tal) de que as proposições sobre Deus (como, de resto, aquelas da esfera da metafísica) não preenchem os requisitos daquilo que pode ser expresso - e assim o melhor seria calar e admitir nossa completa ignorância sobre o assunto.
Pascal - que, a exemplo do profeta Isaías, acreditava num Deus Absconditus - considera:
Se há um Deus, ele é infinitamente incompreensível, pois que não tendo partes nem limites, não tem nenhuma relação conosco. Somos, portanto, incapazes de conhecer não só o que ele é, mas também se ele existe.
Assim sendo, quem ousará resolver esta questão? Não seremos nós, que não temos nenhuma relação com ele.





