Milton DóriaNos últimos 20 anos, consumi tantos litros de vodca (e de outras bebidas alcoólicas, destiladas ou fermentadas) que, se os tivesse vendido - vazios, naturalmente -, possuiria hoje uma bela poupança. Era comum iniciar o dia com uma garrafa ao lado da cama - e isso acontecia bem cedo, pois havia a necessidade imperiosa de restabelecer o nível de álcool no sangue.
Acordava (se é que posso empregar este verbo com precisão), ligava a tevê e ficava bebendo; e, entre o ‘‘Telecurso’’ e o ‘‘Bom Dia, Brasil’’ (com todas aquelas entrevistas com os hipócritas de plantão, contra os quais tinha vontade de atirar a garrafa, não o fazendo para não desperdiçar o líquido), já estava alcoolizado (o mesmo acontecia aos domingos, lá pelo final da Santa Missa, durante a qual não raro tive insights ‘‘místicos’’). Mas era apenas o começo do dia, ou seja, de uma extensa peregrinação pelos bares que só iria terminar tarde da noite. Como é previsível, chegava o momento em que, pelo grau de intoxicação, qualquer possibilidade de conseguir trabalhar (quando menos, ordenar uma frase com alguma lógica ou ter a coordenação motora para datilografá-la) era descartada.
Conheço bem o que são tremores, convulsões, delírios, alucinações e o que chamam de paranóia etílica, e conheço também a inenarrável depressão causada pelo alcoolismo. Sei o gosto do álcool de limpeza, dos perfumes e da acetona, aos quais recorri em ocasiões em que não havia bebida por perto. Vi morrerem em consequência de cirrose hepática duas pessoas a quem amei: uma namorada e uma companheira - e desta última morte, passados mais de três anos, somente há pouco consegui me refazer. Internamentos em clínicas e hospitais psiquiátricos, tive 17, e incontáveis recaídas.
Estranhamente, tenho o fígado em estado bastante razoável, mas o mesmo não posso dizer do meu sistema nervoso central e periférico, pois as sequelas existem: perda da acuidade visual provocada por lesão no nervo ótico, baixíssima tolerância à frustração, comprometimento da memória (deve ser por isso que não consigo lembrar de outras sequelas). Mas, mesmo agora, estando em abstinência (dizer-me sóbrio seria um exagero), rejeitaria - se me fizessem tal proposta e fosse possível colocá-la em prática - não ser alcoólatra. Creio que sem essa doença eu seria quase incapaz de solidarizar-me com o sofrimento alheio e cultivaria tamanha e absurda vaidade que ela me impediria de reconhecer a fragilidade humana.
Apenas alguns acréscimos:
• Alcoolismo - definitivamente - é doença, e assim o classifica a Organização Mundial de Saúde. O mesmo vale para a dependência de outras drogas.
• Ser alcoólatra não é para quem quer, e sim para quem pode. Para começo de conversa, o sujeito precisa nascer com um ‘‘defeito de fabricação’’, ou seja, um fígado com capacidade para desdobrar mais álcool do que um fígado normal. A isso se somarão fatores psicológicos e sociais. O alcoolismo é uma doença biopsicossocial.
• É também doença incurável. Por esta razão, não existe o que chamam de ‘‘ex-alcoólatra’’. O que existe - quando o dependente do álcool deixa de ingerí-lo - é o ‘‘ex-bêbado’’.
• Como alcoólatra (o termo alcoolista é preferível, mas ainda utilizo a denominação tradicional), sei que, para mim, um gole é muito porque uma garrafa é pouco.
• Se depender da minha vontade, não morro disso. Mas fique bem claro: todo mundo tem o direito de beber, tenha ou não problemas com o álcool.
No entanto, talvez não deva ou não mereça as consequências...

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