Wilmar Klein
ReproduçãoCabeça de Aurora, de Miguel AngeloContemporâneo de DHolbach, La Mettrie, Helvétius, Diderot e Voltaire - ou seja, dos grandes materialistas franceses do século 18 -, o padre Jean Meslier (1664-1729) foi, durante muito tempo, considerado uma invenção do autor de Cândido e do Dicionário Filosófico, que publicou em 1762 os Extraits des pensées de Jean Meslier. Quanto o próprio Voltaire possa ter contribuído para a manutenção dessa opinião ou se empenhado para desmenti-la é coisa que desconheço, porém o padre em questão - de quem Anacharsis Cloots, no dia 27 de Brumário do ano II, propôs se erigisse uma estátua no Templo da Razão - existiu de fato e teve o seu rebanho na aldeia de Etrépigny, de gente simples e paupérrima.
Meslier era um padre ateu, mas ao longo da vida inteira escondeu o seu ateísmo, bem como o seu ódio ao regime político e social que oprimia a população camponesa, condenando-a à miséria. Ao morrer, deixou um testamento no qual expunha a sua crítica à religião e aos poderosos. Voltaire, nos Extraits ..., conservou apenas os ataques àquela.
Como bom discípulo de Epicuro, Meslier procura, em seu testamento, dissipar os horrores impingidos pela religião e pelo medo da morte - ou melhor, pelo medo do que nos aguardaria após a morte. Não há qualquer bem a esperar, escreve, nem qualquer mal a temer depois da morte. Aproveita pois sabiamente o tempo, vivendo bem e gozando sóbria, agradável e alegremente, se puderes, dos bens da vida e do fruto do vosso trabalho, porque é o melhor partido que podeis tomar...
Não se pense, porém, que o ateísmo do padre de Etrépigny foi sempre tranquilo, como, por exemplo, o de um Sylvain Maréchal (1750-1803), o autor do Dictionaire des athées anciens et modernes, que mandou gravar em sua lápide o seguinte epitáfio: Aqui repousa um ateu declarado. Viveu sempre na retidão, sem olhar para os céus. Que o seu túmulo seja respeitado. Amigo da virtude, foi inimigo dos deuses. Meslier, tão comedido em suas recomendações sobre como melhor se devia aproveitar a vida (às quais, provavelmente, ele próprio não observou), é o mesmo que violentamente desejou que todos os grandes da Terra e todos os nobres fossem enforcados e estrangulados com as tripas dos padres.
Os que aprendemos a admirar a integridade de um Sócrates, que preferiu beber a cicuta a renunciar às suas idéias, talvez sejamos apressados em condenar Jean Meslier porque não teve a coragem de assumir em vida as suas convicções, permanecendo sacerdote de uma religião na qual não acreditava. Com isso, esquecemos a possibilidade de que o gesto de Sócrates mais se deva à vaidade do filósofo do que à sua coragem e sabedoria, sobre ter sido, de qualquer modo, eficiente como marketing de seu pensamento (assim como o foi para a difusão do cristianismo o sacrifício dos primeiros mártires). E esquecemos também que muito mais humano foi o gesto de um Galileu Galilei, que preferiu, negando as suas descobertas, preservar a pele. Ou o de São Marcos, que, ao ser seguro pelas vestes por um centurião que o perseguia, despiu-as rapidamente, deixando-as nas mãos do perseguidor e prosseguiu a sua fuga.
Digressão: Parece-nos compreensível que alguém morra por sua fé (ainda que bem poucos dentre aqueles que a alardeiam estejam dispostos a tanto), mas não seria compreensível nem razoável que alguém sacrificasse a vida pela ausência de uma fé. Tal é o caso do padre Meslier, que, como bom ateu, valorizava muito a própria vida - afinal, segundo a sua crença (ou melhor, segundo a sua descrença), outra não possuiria depois daquela que viveu. Portanto, quaisquer sentimentos nobres que, ao longo da vida, tenha cultivado (e não há motivos para duvidar de que os tenha efetivamente cultivado, sendo a piedade em relação aos humildes um deles) devem ser tanto mais admirados, pois por elas não esperava nenhuma recompensa na eternidade. (E, diga-se de passagem, esse papo de eternidade é aterrador, mesmo que o sujeito não esteja destinado ao quinto dos infernos. Certa vez sonhei que o paraíso era um campo com a relva muito verde e bem aparada, cheio de belas árvores nas quais os pássaros chilreavam, e não demorei a achar tudo aquilo muito tedioso. Assim, ao acordar, felicitei-me por ter sido apenas um sonho, pois acharia horroroso passar a eternidade num campo de golfe.)





