Quando ouço alguém dizer que sua vida é um livro aberto ou que ela daria um romance, sinto vontade de perguntar-lhe que tipo de livro, que espécie de romance teria em mente, e só não faço tais perguntas por receio de deparar-me com alguma coisa parecida com um folhetim francês do século 19, daqueles bem vagabundos, ou uma antiga novela radiofônica cubana. O fato é que uma certa convenção narrativa nos acostumou a imaginar a vida como uma sucessão de ocorrências interligadas, formando um enredo unitário, onde cada detalhe tem o seu porquê, mais ou menos como naqueles contos em que, se o autor menciona a existência de um rifle pendurado na parede, é muito provável que em algum momento ele será usado; e, se nos acontece ter uma vida repleta de peripécias, então fica bem fácil fazer má literatura.
Boa parte da culpa por esse hábito que temos de ver a vida como uma história linear e consequente, podemos atribuí-la a Aristóteles, cujos preceitos sobre a unidade do enredo, expostos na ‘‘Poética’’, foram tão largamente acatados que, mesmo hoje, causa estranheza qualquer narrativa que não siga a cartilha do Estagirita. É bem verdade que ele observou que na vida real o enredo é outro, mais fluido, e inúmeras coisas ocorrem sem, no entanto, formar uma ação única; porém, como somos o único animal da escala zoológica incapaz de aceitar muita realidade, escolhemos imaginar que a vida possui um enredo, e, de preferência, de molde aristotélico, no qual não existem pontas soltas nem dispersão. A razão disso é psicológica, pois, se somos capazes de acreditar em algo a que podemos chamar de ‘‘a história de nossa vida’’, isso pressupõe não só a existência de uma ordem para ela, mas também de uma finalidade. Dito de outro modo: a vida passa a fazer sentido.
‘‘Mas o homem acha satisfações em viver como se a vida tivesse sentido, embora a sinceridade intelectual garanta que não o tem’’, escreve Lévi-Strauss na sua ‘‘História de Lince’’ (Companhia das Letras, 1993), e muitos outros pensadores dar-lhe-iam razão quanto à ausência de sentido para a vida. Sendo insuportável para a maioria de nós, desconsideramos tal ausência e refugiamo-nos em nossos pensamentos, com a ‘‘esperança secreta de que, à força de inteligência, de penetração e de ardil, é possível dissolver o mal-estar’’ (causado pela nossa errância no ininteligível) ‘‘e obter a felicidade. Fantasma cujo otimismo é ao mesmo tempo de natureza ontológica e teleológica. Ontológica: estima-se que a ordem dos pensamentos tem ascendência sobre a ‘ordem’ dos seres, o que supõe além disso o fato de que o ser é, de certo modo, ordenado. Teleológica: a revelação dessa ordem ao mesmo tempo intelectual e existencial é suscetível de culminar na obtenção de uma melhora’’ (Clément Rosset, ‘‘Lógica do Pior’’, Espaço e Tempo, 1989). Através do pensamento, substituímos ‘‘a simplicidade caótica da existência pela complicação ordenada de um mundo’’ (Rosset, ‘‘A Antinatureza: elementos para uma filosofia trágica’’, Espaço e Tempo, 1989); e, nesse mundo, a nossa história tem, ao mesmo tempo, uma ordem e uma finalidade. Observe, porém, em seu cotidiano, quantas coisas não têm a menor relação umas com as outras, apresentando-se como simples acúmulo de fatos sem razão e sem finalidade - fatos que simplesmente acontecem e diante dos quais se é, no mais das vezes, indiferente. Considere também que a relação que possa ser estabelecida entre um fato e outro nem sempre é suficiente para conferir-lhes um sentido. Quanto às razões que possamos atribuir à existência, para justificá-la, repare que não passam de opiniões fundadas em coisas não comprováveis, e por isso mesmo é que são apenas opiniões.
Tudo funciona mais ou menos como a montagem de um filme, é produto de uma ordem artificial que determina a escolha de certas imagens e a rejeição de outras; e, por mais verossímel que seja o resultado da montagem, não podemos esquecer que se trata de uma montagem e de um filme. Da mesma maneira, um retrato de uma pessoa é sempre um retrato, e não a pessoa. A realidade, aliás, é esquiva a toda tentativa de representação. Assim, o enredo que possamos criar para nossas vidas será tudo, menos a vida mesma, que nunca segue, felizmente, o modelo de Aristóteles. Em resumo: a vida não é o ‘‘Rocambole’’ de Ponson du Terrail e nem uma novela escrita por Glória Magadan.

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