Releio um magro volume, o ‘‘Hospital das Letras’’, de D. Francisco Manoel de Melo, apólogo dialogal em que são interlocutores os livros de Justo Lípsio, Trajano Bocalino, D. Francisco de Quevedo e o autor da obra - nomes que, infelizmente, dizem pouco ou nada aos leitores de hoje, que, em sua maioria, os desconhecem. Asseguro-lhe, no entanto, que é um livrinho delicioso. Publicado originalmente em Lisboa no ano de 1657, ainda encanta pela vivacidade do estilo e nos faz sorrir em passagens como esta em que, após Lípsio argumentar que ‘‘a poesia também é parte da filosofia, e não menos ilustre; donde o nosso Aristóteles se empregou tanto na poética como nas políticas e nas éticas, e nas mais ciências do céu e da Terra’’, Quevedo comenta: ‘‘Não devia de saber isso um rapaz estudante do meu lugar, que, brigando com outro de quem não levava a melhor, entre as injúrias com que por vingança o desonrava, meteu o nome de poeta entre o de patife e filho da p ***’’. (no original, sem os asteriscos que vão aqui em atenção à pudicícia de uns poucos).
D. Francisco também refere, igualmente deliciosa, a carta de Marcial de Alenquer (pseudônimo de D. Tomás de Noronha, poeta satírico português do século 17), que, ‘‘estando hóspede de certo senhor, a quem, furtando-se um prato de prata, houve suspeita em um criado seu, ao que ele, acudindo, escrevia: ‘Aqui se furtou um prato ao Conde, e põe boca em um criado meu. Foi grande providência de Deus, para que o mundo soubesse que o Conde tinha prata e que eu tinha criado’’’.
Jazem nos leitos do ‘‘Hospital das Letras’’, além das obras dos próprios interlocutores, as que eles visitam, de autores portugueses e espanhóis, os quais, em sua maioria, desapareceram da memória dos séculos que lhes sucederam, excetuando-se uns poucos casos: o de Camões, o de Tirso de Molina, Garcilaso de la Vega, D. Luís de Góngora y Argote, Lope de Vega... Mas, mesmo estes, quem em nossos dias os lê? Do maior deles - Camões - , D. Francisco Manoel de Melo (convindo relembrar que o seu apólogo é de meados do século 17) já dizia, pela boca de Quevedo, que, ‘‘se são poucos os que o lêem, são menos os que o entendem’’. Que dizer então de Góngora, que resta ainda como mau exemplo de poeta - rebuscado, artificial, incompreensível - , não obstante as modernas reavaliações de sua obra; de Garcilaso, Molina, Vega, há muito sepultados nas páginas das enciclopédias e das histórias da literatura? No que respeita à literatura portuguesa, só parece sobreviver, enquanto literatura viva, pelos versos de Pessoa, pela prosa de Saramago e, com um pouco de boa vontade, a de Eça. Não que estes autores não mereçam a nossa consideração, porém é preconceito tacanho imaginar que outros grandes que os precederam sejam hoje ilegíveis ou enfadonhos. Quem tenta ler ‘‘Os Lusíadas’’ e o faz sem grande empenho por certo esbarra nas dificuldades que uma leitura mais atenta e algumas notas de rodapé provavelmente superariam, e está longe de avaliar quanto o grande poeta podia ser despojado e espirituoso em lugares que não requeriam a sua grandiloquência épica. É o que procuro demonstrar com os seguintes versos, que descrevem um frugalíssimo banquete: ‘‘Tendes nem migalha assada;/coisa nenhuma de molho;/e nada feito em empada;/e vento de tigelada;/picar no dente em remolho./De fumo tendes taçalhos;/ave da pena que sente/quem de fome anda doente;/bocejar de vinho e d’alhos;/manjar em branco excelente’’.
Porque, nos meus tempos de ginásio, tive professores que, ao invés de iniciar-me no estudo de Camões através de um poemeto fácil, jocoso, como este que transcrevi, colocaram-me, de cara, diante desse monumento que é ‘‘Os Lusíadas’’ (pior ainda: propondo os seus versos para os exercícios de análise sintática, o que sempre me pareceu uma forma muito requintada de sadismo), posso, por isso mesmo, entender aqueles que, em idênticas condições, pegaram nojo de Camões e também dos grandes autores brasileiros que frequentavam o currículo escolar (devo a esses professores a minha aversão a Machado de Assis, conquanto reconheça nele o melhor escritor que o nosso país já teve). Enfim, não existe meio mais eficiente de matar um escritor do que colocá-lo num pedestal, transformado em marmórea e venerável estátua, em instituição literária e imposição curricular.

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