Wilmar Klein
IlustraçãoGeralmente considerado o maior representante do ceticismo renascentista, Montaigne tem sido, ao longo dos anos, o meu filósofo de cabeceira, muito embora a palavra filósofo, no seu caso, deva ser usada restritivamente: o autor dos Ensaios (com os quais inaugurou um novo gênero literário, mais livre do que as modalidades de prosa conhecidas até então) não elaborou nenhum sistema filosófico, mas é filósofo por sua atitude (e, afinal, que mais a filosofia nos pode proporcionar senão uma atitude?). Escritor italiano, frequentemente finge defender idéias que não compartilha, sendo essa mesma defesa a sua maneira habilidosa de fazê-los desmoronar (veja-se como ótimo exemplo desse expediente a sua famosa Apologia de Raymond Sebond, na qual pulveriza a teologia natural do pobre Sebond e as certezas das pias senhoras às quais o ensaio é artificiosamente dedicado). Dentro de sua estratégia, utiliza a contextualização como meio de salvaguardar-se dos incômodos que lhe causaria a divulgação isolada de certos pensamentos - e este é um fato que, parece-me, ainda não mereceu a devida atenção dos estudiosos de sua obra. Vejamos um exemplo, colhido na sobrecitada Apologia (aqui na tradução de Sérgio Milliet, Ensaios, São Paulo, Abril Cultural, 1972 - col. Os Pensadores, vol. XI): Uns se engenham em fazer crer que crêem, e não crêem; os outros - a maioria - persuadem-se a si próprios e não sabem o que seja crer (p. 210). Aparentemente, Montaigne se refere aos partidos políticos de seu tempo, mas tudo indica que o seu alvo é muito mais abrangente - ou seja, as crenças em geral, seja ideológicas, sejam religiosas (e particularmente estas) -, pois, a exemplo de muita outras afirmações dos Ensaios, esta adquire um relevo marcante em relação ao contexto no qual parece inserir-se. Para corroborar a opinião de que, na passagem em questão, o alvo visado pelo filósofo é a fé, vale citar outras passagens próximas: Somos cristãos como somos perigordianos ou alemães (p.211); Linda fé, a que existe somente porque não se tem mais a coragem de deixar de crer! (id.); Quem o autoriza a pensar que o movimento admirável da abóbada, a luz eterna dessas tochas girando majestosamente sobre sua cabeça, as flutuações comoventes do mar de horizontes infinitos, foram criados e continuem a existir unicamente para sua comodidade e serviço?
Montaigne é um escritor extremamente dispersivo, e não é raro que se desvie do assunto que está tratando e não mais o retome, ou mesmo que o título de um ensaio não corresponda ao assunto (ou assuntos) que ele aborda. Nisso, é um escritor moderno, mas não é apenas por suas digressões que Montaigne nos parece atual: seu relativismo, sua tolerância, sua agudeza psicológica, suas opiniões avançadas sobre educação, sexualidade e sobre os povos da América recém-descoberta (vale lembrar que Claude Lévi-Strauss considerou-o um precursor da antropologia), a maneira como se expõe aos seus leitores - tudo isso está muito próximo de nós. Montaigne sabe ser envolvente, e a posterioridade acostumou-se a vê-lo como uma espécie de tio bonachão e meio amoral. No entanto, essa imagem, sobre ser falsa, revela uma leitura superficial de sua obra, que esconde sob o seu revestimento espirituoso e ameno uma profundidade trágica. O autor dos Ensaios é um pensador que aponta a fragilidade das certezas, a insustentabilidade dos dogmas, as limitações da razão, a precariedade da condição humana, a impotência da religião, da filosofia e da ciência na tarefa de apontar caminhos para a sensatez e a felicidade. O mundo, diz, não é senão variedade e dessemelhança e nele o pior lugar que podemos ocupar está em nós mesmos. Nossas ações, em sua maioria, são máscara e artifício. Arranquemos as máscaras às coisas como às pessoas e por baixo encontraremos muito simplesmente a morte. Não obstante, que mais Montaigne nos pode recomendar senão que vivamos o melhor possível, de modo que a morte nos encontre a plantar as nossas couves mas indiferentes à sua chegada e mais ainda ante as nossas hortas inacabadas?





