Wilmar Klein
Ilustração Douglas MayerEnquanto substantivo, o termo designa, como todos sabem, o homem do povo - o que, na verdade, é dizer pouco ou nada. Geralmente empregado no plural, era de largo uso na imprensa de antigamente (permita-me refrescar-lhe a memória ou informá-lo, caso não seja do seu tempo: refiro-me àqueles dias em que hospital era nosocômio, cemitério era campo santo, aparelho de som era radio vitrola e goleiro, goal-keeper; tempo em que o speaker da estação de rádio anunciava que a dona Lindamir, do capão Raso, oferecia uma bela página musical para fulano-das-grudes e beltrano-dos-anzóis; tempo em que ninguém fazia anos, e sim comemorava primaveras); porém, mesmo hoje em dia, quando não lhe ocorre melhor palavra, o jornalista tasca: populares socorreram a vítima, a polícia dispersou os populares, segundo os populares que presenciaram a tétrica cena etc. Atento a esses fatos e disposto a proporcionar-lhe visibilidade, decidi empreender a relevante tarefa de enumerar as características que distinguem o popular, mas concluí, logo no início das minhas investigações, que o próprio do popular, a sua mais marcante característica, é justamente ser indistinto. Ou, dito de outro modo, é ele um misto de joão-ninguém, transeunte e testemunha involuntária.
Como permanece anônimo, o popular procura ao menos fazer volume, e é por isso mesmo que costuma juntar-se a outros populares, do que resulta a aglomeração. A isso quem não é popular chama de turba, e morre de medo dela.
Mas não adiante: isolada ou coletivamente, o popular é destituído de qualquer status, e, na verdade, é sempre menos que cidadão, salvo quando outro popular, em piores condições do que ele, decide explorá-los: ô cidadão, faz favor... tem um trocado aí?. Ou quando a polícia o aborda: seus documentos, cidadão.... Mas, se persiste a suspeita (ou ela é confirmada), ele passa à categoria de elemento: o elemento foi conduzido algemado à delegacia. Só por muita sorte (e consideração dos homens da lei) será promovido a indivíduo: o indivíduo, de alta periculosidade, roubou um quilo de tomates na feira. Seja como for, bem ou mal, popular ainda é o termo politicamente correto usado para designar a arraia-miúda, a patuléia, o povaréu.
Mando, porém, um recado aos populares: que nenhum se iluda ou envaideça com as deferências que, em época de eleição, os candidatos parecem dispensar-lhe. O que acontece é que, tecnicamente, o voto de qualquer sujeito à toa vale tanto quanto o de outro qualquer sujeito à toa das altas esferas políticas, sociais e empresariais. Mas, é claro, passadas as eleições, o popular volta a ser o que sempre foi: um sujeito incômodo, quase subversivo, pois é justamente em relação a ele que dão errado os melhores e mais ambiciosos planos de governo. O popular, em sua insignificância, é uma ameaça ao poder.
Para finalizar, a sinceridade impõe que se diga: ser um homem do povo, um popular, é uma desgraça: só sai do anonimato quando lhe acontece alguma coisa de espetacularmente ruim (um atropelamento, uma bala perdida, a queda de um andaime). Então o popular tem os seus 15 minutos de fama, após o que será conduzido ao Instituto Médico Legal.





