WILMAR KLEIN
O que ainda resta dizer sobre Gustave Flaubert, ante a imensa fortuna crítica que acumulou-se desde a publicação de seu primeiro e polêmico romance, Madame Bovary, em 1857? Todos leram Madame Bovary, Salambô, A Educação Sentimental e A Tentação de Santo Antônio; todos os jornais fizeram com tal frequência a análise dessas obras que não tenho a intenção de recomeçá-la, escreveu, já em 1876, Guy de Maupassant, em artigo publicado no jornal La République des Lettres. Ao longo dos 120 anos que se seguiram à morte de Flaubert, todos os aspectos importantes da obra desse escritor francês (nascido em Rouen, em 12 de dezembro de 1821) foram esquadrinhados, todas as minúcias de sua biografia foram relatadas. Salvo por algumas crises nervosas verificadas a partir dos 23 anos, pelo processo que o Ministério Público de Paris moveu contra ele (e do qual acabou sendo absolvido) quando da publicação da história de Emma Bovary considerada ofensiva à moral e aos bons costumes pela sua ligação com a ambiciosa e afetada Louise Collet e a tentativa de conquistar o amor de uma admiradora, a princesa Mathilde de Saint-Gratien, uma biografia bem pouco interessante.
A vida de Flaubert, observou Henry James em ensaio datado de 1902, é quase que exclusivamente a história de sua dedicação à literatura, tanto que falar em seus cinco ou seis trabalhos de ficção (às obras citadas acima, há que acrescentar os Três Contos e o inacabado Bouvard e Pécuchet) é dar conta de toda ela. Ele morreu em 1880, depois de uma carreira de cinquenta e nove anos singularmente pouco marcada por mudanças de ambiente, de fortuna, de atitude, de ocupação, de caráter, e acima de tudo, pode-se dizer, de idéias.
Haverá por certo quem se disponha a falar mais sobre a obsessão de Flaubert pela forma, sobre o seu perfeccionismo. Haverá talvez quem se preste a escrever um longo estudo acadêmico sobre o papagaio de Flaubert, ou seja, sobre o psitacídeo empalhado que o escritor pediu emprestado ao Museu de Rouen, colocou sobre sua escrivaninha, onde longamente o observou, apenas porque queria descrever um papagaio numa pequena passagem de uma de suas histórias. Ou sobre os 30 dias em que ficou observando o movimento de uma farmácia para dar mais credibilidade à descrição da de Homais em Madame Bovary.
Lenta, obstinada, penosamente, Flaubert buscou a palavra sempre precisa e única, a medida, o ritmo particular para cada circunstância, para cada efeito, e criar por esta indissolúvel união o que os literatos chamam de estilo, muito diferente daquele que se admira oficialmente. Palavras do discípulo Maupassant, no artigo anteriormente mencionado, às quais se segue a conclusão de que o autor de Bovary entre outros clássicos, não tem seu estilo, mas tem o estilo, ou seja, as expressões e a composição que ele emprega para formular um pensamento qualquer, são sempre aquelas que convêm absolutamente a esse pensamento, uma vez que seu temperamento se manifesta pela precisão e não pela singularidade da palavra. E remata sua análise com esta importante observação: Flaubert jamais escreveu a palavra eu. Ele nunca vem conversar em público no meio de um livro, ou saudar esse público no final, como um ator no palco; e não escreve prefácios. É o apresentador de marionetes humanas que devem falar por sua boca, enquanto ele não se dá o direito de pensar por elas; e é preciso que não se percebam os cordões ou se reconheça a voz.
Mestre do realismo; influência poderosa sobre escritores como Eça de Queirós (cuja Luísa, personagem de O Primo Basílio, é uma Emma Bovary à portuguesa) e o nosso Raul Pompéia (principalmente em O Ateneu); antecipador de Tchecov; precursor do romance behaviorista norte-americano (Hemingway, Faulkner), do Noveau Roman francês (Robbe-Grillet, Butor, Sarraute) e, na medida em que colocava como ideal máximo de seu fazer literário um livor praticamente sem assunto, que se impusesse pela forma (Bouvard e Pécuchet é a tentativa de realizar um tal projeto), também precursor da escritura de autores como Joyce e Beckett. Que mais resta dizer sobre Flaubert? Apenas isso: leiam e releiam Flaubert.





