MANN: A ARTE COMO DOENÇA E MALDIÇÃO
Arquivo FolhaThomas Mann, o maior autor alemão do século 20: literatura densaSe no final deste ano se fizesse uma relação dos maiores romances do século 20, certamente estariam incluídos na lista, já entre as primeiras posições, pelo menos duas obras de Thomas Mann: ‘‘A Montanha Mágica’’ (‘‘Der Zanberberg’’, 1924) e ‘‘Doutor Fausto’’ (‘‘Doktor Faustus’’, 1947). Uma terceira inclusão possível seria ‘‘Os Buddenbrooks’’ (‘‘Die Buddenbrooks’’) , o romance de estréia do escritor alemão, publicado pela primeira vez em 1901. Nestes e nos demais livros de Mann se apresentam, em maior ou menor grau, dialéticas recorrentes, assinaladas pelo crítico Otto Maria Carpeaux (1900-1978) em sua obra ‘‘A Literatura Alem㒒 (1964): ‘‘a oposição entre o artista e o burguês e a doença fatal do burguês que se torna artista – problema pré-formado em Flaubert; e a relação entre a arte do artista e a doença do artista – problema pré-formado em Nietzsche. A expressão meio romântica, meio humorística dessa dialética’’, prossegue Carpeaux, ‘‘é a novela ‘Tonio Kroeger’: não é a obra-prima absoluta de Mann, mas a chave para a compreensão de todas as outras; e é uma história deliciosa. O caso extremo daquele problema é o do artista doente, no sentido da incapacidade de viver, porque dedicou a vida toda a uma estéril perfeição artística. É o caso do escritor Aschenbach, na novela ‘Der Tod in Venedig’ (‘A Morte em Veneza’). Assim como convinha ao tema, essa novela é a obra artisticamente mais perfeita de Thomas Mann.’’
Como que endossando as opiniões do grande crítico e historiador da literatura acima transcritas, ‘‘Tonio Kroeger’’ – cujo manuscrito foi iniciado antes da publicação de ‘‘Os Buddenbrooks’’ e completado em 1903 – e ‘‘Morte em Veneza’’ – originalmente publicado em 1913 – foram as duas obras escolhidas pela editora Nova Fronteira para compor o volume que dá início à reedição dos livros do escritor.
Unanimemente considerado o maior autor alemão do século 20 e um dos maiores de toda a história da literatura, Thomas Mann – Prêmio Nobel de 1929 – nasceu em Luebeck, em 6 de junho de 1875. Descendia, por parte do pai, de uma das mais tradicionais famílias de sua cidade natal; da mãe recebeu a sua cota de sangue português e brasileiro (não por acaso o nome de seu personagem Tonio Kroeger é metade germânico, metade latino). Após viver entre 1893 e 1934 em Munique, Mann, divergindo da diretriz política adotada em seu país, emigra para a Suíça, passando a residir numa pequena propriedade nas cercanias de Zurique. Em 1939, atendendo a convite para lecionar na Universidade de Princeton, muda-se para os EUA e, em 1944, adquire a cidadania norte-americana. Terminada a II Guerra Mundial, retorna à Alemanha e, pouco tempo depois, volta a fixar residência em Zurique, onde morreria em 12 de agosto de 1955.
Em parte devido à tradição romântica, às idéias de Schopenhauer e Nietzsche, à música de Wagner, que constituem, juntamente com alguns romancistas escandinavos (Kielland, Lie, Bang, Jacobsen), suas mais poderosas influências; em parte devido à sua disposição melancólica, Mann desenvolveu em seu espírito a noção de arte como algo limítrofe da morte, incompatível com a vida e a alegria de viver tal como são experimentadas pelo mais comum dos mortais. Arte como renúncia e como uma maldição. ‘‘Não me diga nada de vocação’’, pede Tonio Kroeger; ‘‘literatura não é vocação nenhuma, e sim uma maldição!’’
Porém, como observa Erwin Theodor na introdução de uma tradução de ‘‘Tonio Kroeger’’ e ‘‘A Morte em Veneza’’, publicada pela editora Boa Leitura no início dos anos 60: ‘‘Kroeger, o artista por natureza, crê na justificativa de sua existência exclusivamente através do amor dedicado a um mundo desprovido de arte’’, enquanto Gustav Aschenbach, de ‘‘Morte em Veneza’’, ‘‘devoto à arte durante cinquenta anos, é derrotado pelas forças elementares da vida tão logo resolve abandonar a sua ‘torre de marfim’’’. Assim, completa, nos oferece Thomas Mann nessas duas novelas problemas que defronta em quase todos os seus escritos: ‘‘Os Buddenbrooks’’, por exemplo, é história da decadência burguesa (e convém notar que, em Mann, doença e decadência são sinônimos); em ‘‘A Montanha Mágica’’, a doença do jovem Hans Castorp e dos pacientes de um sanatório para tuberculosos constitui metáfora da decadência de toda a Europa no período imediatamente anterior à I Guerra Mundial; em ‘‘Doutor Fausto’’, o problema gênio/doença reflete a derrocada de todo o povo alemão sob o nacional-socialismo.
Estas e outras obras fundamentais do magnífico autor – como a trilogia ‘‘José e Seus Irmãos’’, ‘‘Lotte de Weimar’’, ‘‘Mário e o Mágico’’ e ‘‘As Confissões do Vigarista Felix Krull’’– estão na lista dos relançamentos da Nova Fronteira, proporcionando ao leitor mais uma oportunidade de desfrutar de alguns exemplos da melhor e mais densa literatura produzida nos últimos 100 anos.

mockup