Wilmar Klein Spencer Tracy: um centenário a ser lembrado ReproduçãoConsiderado um dos grandes atores do cinema americano, Spencer Tracy foi o recordista em indicações ao Oscar Março é o mês do Oscar, uma boa ocasião para dedicar algumas linhas ao recordista de indicações na categoria Melhor Ator, o primeiro a ser premiado duas vezes e o único até agora a receber a estatueta por dois anos consecutivos: Spencer Tracy, cujo centenário de nascimento será comemorado no próximo dia 5 de abril. Spencer Boaventure Tracy veio ao mundo em Milwaukee, Wisconsin, onde seu pai, o irlandês John Edward Tracy, era gerente geral de vendas da Sterling Motor Truck Company. Na escola, não foi o que se pode chamar de aluno exemplar: estudava apenas o suficiente para passar de ano e, não fosse pela insistência paterna, bem cedo teria abandonado os estudos. Já com 17 anos de idade, encontrou o que lhe pareceu uma desculpa patriótica para satisfazer o seu espírito de aventura e o desejo de conhecer novos lugares: alistou-se – juntamente com seu amigo, o futuro ator Pat O’Brien – na Marinha de seu país, que acabava de entrar na Primeira Guerra. Uma experiência frustrante pois durante toda a guerra permaneceu nos EUA, em centros de treinamento naval. Quando deu baixa, Spencer prosseguiu os estudos secundários e, em 1921, matriculou-se no curso pré-médico do Ripon College. Seu plano era tornar-se cirurgião plástico. Bastou-lhe, no entanto, participar de algumas peças teatrais encenadas naquele colégio para descobrir a sua real vocação. Disposto a ser um ator profissional, matriculou-se pouco tempo depois na Academia de Artes Dramáticas de Nova York, onde reencontrou o seu amigo O’Brien passando a dividir com ele um quartinho num pardieiro da Rua 98 com West End. Após uma série de pequenos papéis em companhias de repertório ( stock companies) e casar-se com Louise Tredwell, atriz que atuava numa dessas companhias, Tracy teve a sua grande chance interpretando o papel principal de um drama penitenciário, ‘‘The Last Mile’’, que estreou na Broadway em fevereiro de 1930, obtendo um sucesso inesperado. John Ford – que já era um cineasta de certo prestígio – foi ver a peca e, impressionado pelo desempenho do jovem ator, pediu à Fox que o contratasse para ‘‘Up the River’’, que começaria a rodar dentro de algumas semanas.O filme, lançado naquele mesmo ano, foi o primeiro dos 73 longas que Tracy realizou durante seus 37 anos de carreira cinematográfica. Entre 1931 e 1932, atuou em nada menos que 10 filmes. Em 1933, consolidou a sua carreira ao atuar em produções mais expressivas como ‘‘20.000 Anos em Sing-Sing’’, de Michael Curtiz, ‘‘Paraíso de um Homem’’, de Frank Borzage, e, principalmente, em ‘‘Glória e Poder’’, de William K. Howard, com roteiro de Preston Sturges. Em 1935, assina contrato com a Metro-Goldwyn-Mayer, onde permaneceria por 20 anos e realizaria ‘‘A Cidade do Pecado’’, filme que lhe valeu a primeira indicação para o Oscar, ‘‘Marujo Intrépido’’(1937), que lhe deu a primeira estatueta da Academia, pela sua performance no papel do português Manuel, e ‘‘Com os Braços Abertos’’ onde, vencendo o desafio de interpretar um personagem real e que ele conhecia pessoalmente, o padre Edward J. Flanagan, saiu-se tão bem que levou o seu segundo Oscar consecutivo. As outras seis indicações vieram em 1950 (por seu desempenho em ‘‘O Papai da Noiva’’), 1955 (por ‘‘Conspiração do Silêncio’’), 1958 (‘‘O Velho e o Mar’’), 1960 (‘‘O Vento Será Tua Herança’’), 1961 (‘‘Julgamento em Nuremberg’’) e 1967 (por ‘‘Adivinhe Quem Vem para Jantar?’’). Neste último e em oito filmes anteriores (‘‘A Mulher do Dia’’, de 1942; ‘‘Fogo Sagrado’’, também de 42; ‘‘Sem Amor’’, de 1945; ‘‘Mar Verde’’, de 1947; ‘‘Sua Esposa e o Mundo’’, de 1948; ‘‘A Costela de Adão’’, de 1949: ‘‘A Mulher Absoluta’’,de 1952; e ‘‘Amor Eletrônico’’, de 1957) dividiu o estrelato com Katharine Hepburn, com quem formou um dos pares mais famosos da história do cinema. Spencer Tracy morreu em 11 de junho de 1967, em sua casa em Hollywood Hills, vítima de um colapso cardíaco. Havia três semanas que concluíra sua participação em ‘‘Adivinhe Quem Vem para Jantar?’’ – portanto, a sua nona indicação ao Oscar foi póstuma. Tivesse vencido a disputa (e, cá para nós, merecia ter vencido), teria sido também o primeiro ator premiado pela Academia depois de morto. - - - --- Uma boa oportunidade para rever Spencer Tracy: o canal pago Telecine 4, da Net, exibe amanhã, às 21h45, dentro do ‘‘Festival do Oscar’’, a comédia pastelão ‘‘Deu a Louca no Mundo’’, que ele estrelou em 1963. Filmografia selecionada - 1933: ‘‘20.000 Anos em Sing-Sing’’, ‘‘Glória e Poder’’, ‘‘Paraíso de um Homem’’. - 1936: ‘‘Fúria’’, de Fritz Lang; ‘‘A Cidade do Pecado’’, de W.S. Van Dyke. - 1937: ‘‘O Mundo Ensinou-me a Matar’’, de W.S. Van Dyke; ‘‘Marujo Intrépido’’, de Victor Fleming; ‘‘Labirinto de Destinos’’, de Frank Borzage. - 1938: ‘‘Com os Braços Abertos’’, de Norman Taurog. - 1941: ‘‘O Médico e o Monstro’’, de Victor Fleming, onde Tracy dispensou a maquiagem ao interpretar o monstro e nem por isso está menos impressionante. - 1945: ‘‘Eterno Conflito’’, de George Sidney. - 1948: ‘‘Sua Esposa e o Mundo’’, de Frank Capra. - 1950: ‘‘A Costela de Adão’’, de George Cukor. - 1955: ‘‘Conspiração do Silêncio’’, de John Sturges. - 1958: ‘‘O Velho e o Mar’’, de John Sturges; ‘‘O Último Hurra’’, de John Ford, recém-lançado em DVD no Brasil. - 1960: ‘‘O Vento Será Tua Herança’’, de Stanley Kramer. - 1961: ‘‘A Hora do Diabo’’, de Mervin LeRoy; ‘‘Julgamento em Nuremberg’’, de Stanley Kramer. - 1967: ‘‘Adivinhe Quem Vem Para Jantar?’’, de Stanley Kramer.

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