Wilmar Klein
Wilmar Klein Vico: pensador do conhecimento e da História Scienza Nuova, obra-prima do filósofo italiano, ganha sua primeira tradução integral no Brasil ReproduçãoDesenho concebido pelo próprio Vico e realizado por Domenico Vaccaro para ilustrar simbolicamente o conteúdo da Ciência Nova riverrun, past Eve and Adams, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs (James Joyce, Finnegans Wake) O trecho acima transcrito, extraído da abertura de um dos mais ambiciosos e inovadores romances do século 20, faz, por meio da palavra vicus, alusão -ainda que um tanto criptográfica - a Giambattista Vico, filósofo italiano que Joyce admirava e de quem tomou emprestado o tema do recorso (recirculação, na linguagem do escritor irlandês), que funciona como uma espécie de pivô metafísico e justificativa da circularidade da obra. Não se trata de admiração e influência isoladas: antes do autor de Ulysses e Finnegans Wake, outros nomes ilustres experimentaram-nas - caso de Herder, Goethe, Coleridge, do historiador Jules Michelet e dos filósofos Karl Marx e Benedetto Croce. No entanto, em sua própria época, Vico foi um pensador ignorado. Nascido em Nápoles, em 23 de junho de 1668 (e não em 1670, como declara em sua Autobiografia), graduou-se em Direito em 1694, pela Universidade daquela cidade, onde a partir de 1699, ocupou o cargo de professor de retórica. Estudioso de Platão, teve entre 1686 e 1695 - período em que atuou como preceptor do filho do marquês Domenico Bocca, em Vatolla (Cilento) - os seus primeiros contatos com a filosofia racionalista de René Descartes, então em moda na Itália. Publicou em 1709 Sobre o Método de Estudos do Nosso Tempo, onde pela primeira vez atacou publicamente o cartesianismo. As críticas às idéias do filósofo francês prosseguiram em Sobre a Antiquíssima Sabedoria dos Italianos (1710) e, na sua forma mais incisiva a consistente, na obra máxima do Vico, Princípios de uma Ciência Nova sobre a Natureza Comum das Nações, que ele reescreveu várias vezes, tendo supervisionado meticulosamente as três edições do livro publicadas durante a sua vida - em 1725, 1730 e 1744. Sob o título A Ciência Nova, este texto fundamental da filosofia ganha agora a sua primeira tradução integral em nosso país, realizada por Marco Lucchesi e publicada pela editora Record (502 págs. R$ 49 em média). A verdade e o fato Em que, basicamente, Vico diverge de Descartes? Primeiramente, o pensador napolitano rejeita o célebre cogito, ergo sum cartesiano e, por consequência, nega a capacidade humana de autoconhecimento. Vico acredita que só podemos realmente conhecer aquilo que fazemos, criamos ou produzimos. Para ele, o verdadeiro e o feito são uma e a mesma coisa. Ora, o homem tem a consciência de si mesmo - mera constatação -, mas não a ciência do seu próprio ser, pois ciência implica em conhecimento fundamentado em causas. Como o homem não cria a si mesmo, nem à sua mente, ignora a forma como apreende a si próprio e desconhece a causa da sua existência. Após rejeitar o cogito como instrumento do autoconhecimento e contrapor a ele o engenho - faculdade de descobrir o novo e o verossímil -, o autor da Scienza Nuova descarta a premissa cartesiana de que a existência de Deus pode ser demonstrada a priori. Se o homem sequer é capaz de chegar à ciência do próprio ser, quanta pretensão a dele em imaginar-se capaz de estabelecer aprioristicamente a existência de Deus! Por último, Vico recusa-se a admitir que as idéias claras e distintas são um critério universal de verdade, empenhando-se em demonstrar que tais idéias podem não ser tão claras e distintas como se supõe, e que - a exemplo do que ocorre no âmbito da linguagem - a própria razão traz como conteúdo subjacente uma boa dose de irracionalidade. Estágios evolutivos Na Ciência Nova, Vico divide o desenvolvimento histórico da humanidade em três estágios: a idade divina, a idade heróica e a idade humana. Na primeira, prevaleceriam os sentidos agudos e a sabedoria poética (isto é, a fantasia); os homens primitivos, temendo ser punidos pelas terríveis divindades que enxergavam nas forças naturais, refreiam os seus instintos, criando as famílias e as primeiras ordens civis. Na idade heróica, são feitas alianças entre os chefes das famílias, visando eliminar as disputas internas e proteger-se contra os ataques externos; a sociedade é dividida entre patrícios e plebeus, e surgem as primeiras cidades; a fantasia ainda prevalece sobre a reflexão. Por sua vez, na idade humana aparecem as lutas de classes, assim como a tentativa (empreendida pela filosofia platônica) de conciliar a justiça comum e os interesses privados; surgem as repúblicas livres e democráticas; por outro lado, verifica-se o afrouxamento dos laços tradicionais, a crise dos valores e as inevitáveis corrupção e decadência, em consequência das quais a sociedade reverteria a um estágio de barbárie (hoje imaginaríamos algo na linha das distopias futuristas pós-apocalípticas mostradas nos filmes de sci-fi hollywoodianos). Estágios evolutivos cíclicos, circulares, valendo notar que essa circularidade não é estranha à estrutura do Finnegans Wake e de outros produtos da literatura, do cinema e do teatro do nosso século. Em face a tantas atrocidades e fatos grotescos que o noticiário espelha diariamente, como uma espécie de contraponto à evolução tecnológica da humanidade, a tese de Vico, de um retorno à barbárie após a crise da idade do homem, pode servir como um alerta ou valer como uma premonição. P.S.: Giambattista Vico morreu em 23 de janeiro de 1744, em Nápoles. Ao longo de sua existência, foi um cristão piedoso e um homem triste. Cedo desiludiu-se da vida acadêmica, na qual, apesar dos seus esforços e méritos, nunca conseguiu ir além do modesto posto de professor de eloquência. Mesmo o fato de ter ocupado, a partir de 1735, a importante posição de historiador oficial de Carlos III, rei de Nápoles, em nada contribuiu para que, em sua própria época, sua filosofia fosse reconhecida como umas das mais importantes contribuições intelectuais da história do pensamento italiano. Para comprovar esta última afirmação, leia - com a atenção que o texto exige e merece - a boa tradução da Scienza Nuova agora disponível em nosso país.





