Linhas provisórias sobre
um amigo assassinado
Arquivo pessoal‘‘Marião’’ conferindo seus desenhos: artista multimídiaAs informações sobre o crime, com as distorções de praxe, ficaram restritas aos jornais e programas de rádio e TV que têm no noticiário policial a base do seu ‘‘cardápio’’: no início da madrugada de domingo, dia 20, em Curitiba, um barman - Mário César Barbosa Ramos, de 33 anos - foi morto por um freguês armado com uma escopeta calibre 20, de cano e coronha serrados. Uma ocorrência trágica e brutal, destinada, no entanto, a ser esquecida - em face a novas violências - no transcorrer dos dias. Pois é precisamente isso - esquecer o fato - o que eu me recuso a fazer, e por vários motivos, não apenas de ordem pessoal - pois Mário César, o ‘‘Marião’’, foi o meu melhor e mais próximo amigo nos últimos dez anos - mas também porque era um artista promissor e coerente com aquilo em que acreditava.
‘‘Marião’’ fazia jus ao apelido aumentativo, mas, ao contrário do que foi sugerido pela imprensa sensacionalista, pouco escrupulosa em relação à verdade, nunca prevaleceu-se de seu porte físico. Era, ao contrário, uma pessoa de temperamento afável, extremamente leal em relação aos seus muitos amigos. Obviamente, trabalhando à noite num bar, tinha vez ou outra que botar para fora algum freguês inconveniente. Posso garantir que, para que isso acontecesse, era preciso que o freguês fosse realmente muito inconveniente. Tal foi o caso do sujeito que, pouco tempo após ser expulso do estabelecimento, retornou com a arma acima descrita, disparando contra ‘‘Marião’’, que morreu ao ser conduzido ao hospital, e - sem conseguir atingi-lo - contra Antonio José Lino, o proprietário do Lino’s Bar, o mais tradicional bar alternativo de Curitiba, ponto de encontro harmonioso de músicos e artistas de diversas tendências, todos empenhados no desenvolvimento de trabalhos igualmente alternativos.
Mário César pertencia a esse meio. Foi desenhista talentoso sintonizado com a tradição dos quadrinhos underground, percussionista da primeira banda de som industrial curitibana, a Tanhauser, e criador do zine ‘‘Scab Lohmlabha’’. Procurando ampliar o seu espaço, bem como o de outros artistas locais que por opção permanecem à margem das galerias, idealizou a coletiva IDeOsphera, que, em suas duas edições, realizadas no ano passado na Casa do Estudante Universitário, reuniu artistas de diversas áreas (pintura, escultura, desenho, fotografia, instalação, performance). Foi também um entusiasta da música experimental, o que fez com que, durante todos esses anos de amizade, mantivéssemos um mutuamente estimulante intercâmbio de discos, fitas e informações.
Poucas horas antes de ser morto, ‘‘Marião’’ esteve em minha casa para mostrar-me o cartaz que havia criado para uma performance que, no próximo dia 27, ele, eu e minha mulher, Lizandra, faríamos no Lino’s Bar. A proposta era apresentar, dentro de uma instalação que ele havia planejado, uma colagem de sons desenvolvida, com boa dose de livre improvisação, por meio da manipulação de tapes e toca-discos. Mário havia, inclusive, conseguido uma máquina de gelo seco e luzes especiais para incrementar a parte visual e, sem dúvida, estava eufórico com a perspectiva do que poderíamos realizar juntos. No início da madrugada a notícia de seu assassinato, não sem uma ponta de trágica ironia: Mário nasceu no Rio de Janeiro, trocando-o por Curitiba por considerá-la uma cidade mais tranquila e propícia ao desenvolvimento de um trabalho criativo.
P.S.: Chamei de ‘‘linhas provisórias’’ ao texto acima, pois o impacto recente da violência que custou a vida de Mário César Barbosa Ramos faz com que eu não tenha a serenidade suficiente para encontrar as palavras adequadas para traduzir a amizade que nos uniu. De qualquer modo, cabe aproveitar este P.S. para agradecer a todos os amigos do ‘‘Marião’’ que empenharam-se para que ele pudesse ter um sepultamento decente, bem como para localizar e trazer a Curitiba seus familiares. E dizer que aquele que, em tempo relativamente tão curto, teve méritos para conquistar tantas amizades sinceras e com mesma sinceridade corresponder a elas, por certo não viveu em vão.

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