Wilmar Klein
Arquivo FolhaFaye Dunaway em BarflyCinema & alcoolismo
Cartaz do Telecine 5, às 22 horas desta quinta-feira, Farrapo Humano (The Lost Weekend, EUA, 1945), de Billy Wilder, é provavelmente o melhor filme de todos os tempos a respeito do alcoolismo não só devido ao inegável talento de Wilder como cineasta, mas também pelo realismo do roteiro assinado por ele e Charles Brackett, com base em romance de Charles Jackson. Tal opinião torna-se ainda mais relevante quando se considera que o tema do filme vem sendo abordado desde a proto-história do cinema. Assim, antes mesmo da invenção do cinematógrafo, Émile Reynaud, o criador do desenho animado, realiza em 1892 Un Bon Bock (Uma Cerveja Gostosa) e em 1894 W.K.L. Dickson lança Cena de Bar, filme para visão direta no quinetoscópio. É bem verdade que ainda não são filmes sobre o alcoolismo, mas, como tudo começa com o primeiro gole, abrem caminho para abordagens específicas e chamam a atenção para a importância do álcool na cultura ocidental (tanto é que, veículo ainda incipiente, o cinema da época rapidamente incorpora o assunto ao seu repertório).
Vieram depois, em meio a outras produções de menor importância histórica, Sonhos de um Bêbado (1898), da Pathé, Perigos do Alcoolismo (1899), de Alice Guy, e, por volta de 1900, Mirthful Mary (A Alegre Mary), série cômica produzida pelos Haggar, feirantes do País de Gales, que trazia como personagem principal uma alcoólatra. Já em 1902, o pioneiro Ferdinand Zecca roda As Vítimas do Alcoolismo (baseado em Zola) e William Paul realiza Os Horrores do Alcoolismo.
O interessante é que essas produções ainda toscas antecipam duas maneiras de retratar os dependentes do álcool que até hoje têm trânsito no cinema: de um lado (como em A Alegre Mary), o registro humorístico; de outro, o registro dramático desinformado (por vezes sensacionalista e/ou preconceituoso) que tende a associar o alcoolismo a uma falha de caráter. Seja como for, antes mesmo de a Organização Mundial de Saúde oficialmente reconhecer o alcoolismo como doença, filmes sérios buscaram oferecer uma visão mais verdadeira do problema, como o clássico de Wilder e o excelente Vício Maldito (Days of Wine and Roses, 1962), de Blake Edwards, que mostra o drama de um casal de alcoolistas.
Produções posteriores notadamente a partir dos anos 80 investiram numa terceira forma de abordar a dependência alcoólica, tão ou mais perniciosa do que as abordagens distorcidas das primeiras décadas do cinema: a glamourização da doença. Dois exemplos: Crônica de um Amor Louco (Tales of Ordinary Madness, Itália/França, 1981), de Marco Ferreri, e Barfly Condenados Pelo Vício (Barfly, EUA, 1988) ambos adaptações de histórias do escritor alcoólatra Charles Bukowski. A constatação é a de que, quando se associa o alcoolismo ou a dependência de qualquer outra droga ao charme decadente de personagens marginais (convém lembrar que os protagonistas de Crônicas ... e Barfly são escritores desencantados e talentosos), tal associação torna-se atraente, em especial para consideráveis fatias das platéias mais jovens, sobre as quais os outsiders são modelos que exercem fascínio. Assim, mesmo quando existe redenção para o personagem alcoolista, a imagem de maior apelo é do alcoolista na ativa, apresentado como uma espécie de herói contracultural, alguém na contracorrente de uma sociedade careta e hipócrita. Na vida real, obviamente, tais histórias costumam terminar mal.
P.S.: Ainda que bastante realista e verdadeiro na descrição do inferno vivido pelos alcoolistas crônicos, Farrapo Humano a exemplo de outros enfoques hollywoodianos da doença termina de forma simplista, passando a idéia de que basta a decisão de não beber e a força de vontade do dependente para que tudo se resolva. Infelizmente, não é assim que funciona: sem assistência médica especializada e o auxílio de determinados medicamentos, o personagem vivido por Ray Milland (que, diga-se de passagem, era um ator pouco afeito ao álcool) experimentaria um novo inferno, com direito a alucinações e delirium tremens, por conta da síndrome de abstinência. Quem é do ramo sabe do que estou falando.
E-mail: [email protected]
Excepcionalmente hoje publicamos a coluna de Wilmar Klein nesta página.





