ReproduçãoO duo Orbital junta-se a Angelo Badalamenti num lançamento agendado para o final do mês na InglaterraOs sons que (não) ouviremos em 2000
Quando escrevi, no domingo passado, sobre a globalização da banalidade, tendo em vista, principalmente, a banalidade musical, não pretendi negar a existência de trabalhos inovadores, desenvolvidos por músicos que fizeram do experimentalismo a sua profissão de fé. No entanto, num panorama fonográfico dominado por megaempresas multinacionais voltadas à maximização dos lucros, é forçoso reconhecer que esses trabalhos, cuja inventividade é inversamente proporcional ao seu retorno comercial, estão confinados à esfera dos pequenos selos e das tiragens limitadas. Tal é, precisamente, o caso da grande maioria dos CDs estrangeiros listados a seguir, que têm lançamento previsto para este ano. Por pertencerem à categoria da música ‘‘difícil’’, que exige atenção, boa informação musical (e extramusical) e ausência de preconceitos, pode-se, com toda a segurança, prever que esses discos (salvo uma ou duas exceções) permanecerão inéditos no Brasil. Portanto, para escapar à banalidade ofertada em nosso país, a alternativa continua sendo a sempre onerosa importação. Vamos à lista ...
Na próxima terça-feira, a Soleilmoon (gravadora e distribuidora alternativa norte-americana) coloca no mercado ‘‘Red Letters’’, de Edward Ka-Spel, e a reedição de ‘‘The Monstrous Soul’’, do Lustmord. Ka-Spel é o líder da veterana banda Legendary Pink Dots (sobre a qual podem ser obtidas amplas informações no item ‘‘Music’’ do site www.brainwashed.com) e possui uma já extensa relação de discos solo cuja criatividade oscila entre a beleza e a bizarrice. Quanto ao Lustmord, projeto capitaneado por Brian Williams, é referência obrigatória quando se fala em dark ambient. Originalmente lançado no início de 1992, ‘‘The Monstrous Soul’’ é uma parceria de Williams com Adi Newton (do Anti Group e ClockDVA). A exemplo de álbuns anteriores do Lustmord - ‘‘Paradise Disowned’’ (relançado em setembro do ano passado pela mesma Soleilmoon) e ‘‘Heresy’’ - traz composições de natureza ritualística, intensas e climáticas. Um álbum altamente recomendável.
No dia 28, sai na Inglaterra ‘‘Beached’’, EP no qual o grupo Orbital e Angelo Badalamenti somam forças. Levando em conta que o Orbital foi atração do último Free Jazz, o disco - mesmo sendo um EP, formato sem tradição no Brasil - tem alguma chance de ganhar uma edição nacional. Badalamenti, por sua vez, compôs a maioria das trilhas dos filmes de David Lynch e, portanto, não é nenhum ilustre desconhecido por aqui.
No dia 6 de março, o selo Kling Klang lança na Inglaterra o miniálbum ‘‘Expo 2000’’, do Kraftwerk. Teoricamente, também teria chance de sair em nosso país, mas, de novo, o formato atrapalha. No dia 13 do mesmo mês, a Mute inglesa desova a reedição (em CD e LP duplo) de ‘‘Experimental Remixes’’, no qual John Oswald, Prince Paul, Beck, Moby, Wu Tang Clan, U.N.K.L.E., entre outros artistas e grupos, assinam remixes do Jon Spencer Blues Explosion. Como a Mute não tem representante na terra do É o Tchan, melhor partir logo para a importação.
Ainda em março, Nocturnal Emissions lança ‘‘Futurist Antiquarianism’’ (Soleilmoon), enquanto o People Like Us retorna às gôndolas das lojas alternativas com ‘‘Lassie House/Jumble Massive’’ (Soleilmoon/Caciocavallo). Nocturnal Emissions, projeto liderado por Nigel Ayers, compõe com The Hafler Trio e o zoviet france o triunvirato das bandas mais inventivas surgidas no cenário pós-industrial de Newcastle, Inglaterra. Eletrônica de ponta recheada de boas idéias. Nem de longe tem a ver com as bobagens que assolam as pistas de dança: a do NE é música para o cérebro. Já o People Like Us é prova cabal de que é possível fazer música de vanguarda reciclando o lixo pop, incluídos aí até jingles de shampoo e sucrilhos.
Ah, sim ... em março Richard H. Kirk (ex-Cabaret Voltaire) também lança, pela Touch britânica, álbum novo, ainda sem título definido.
Em abril, é a vez do CD ‘‘Time Again’’, do Claire Voyant. O disco - editado pelo selo Accession, da Alemanha - trará remixes a cargo de bandas interessantes como Front 242, Haujob, Das Ich, Love Spirals Downwards, entre outras. Em maio, a mesma Accession reedita dois álbuns do Claire Voyant: o disco homônimo, de estréia, e ‘‘Time and the Maiden’’, ambos com faixas-bônus.
Observação: todas as datas acima, fornecidas pelas gravadoras, são passíveis de alteração. Quando os discos forem efetivamente lançados, pretendo comentá-los aqui na Folha, com os devidos detalhes.
Ainda neste ano
Aguardando definição de datas, mas prometidos para este ano:
* Aube: ‘‘Rewriting the Book’’ (Elsie & Jack, EUA/Grã-Bretanha) - CD de remixes assinados pelo próprio Aube, Brume, Pan sonic, entre outros.
* Aube/zoviet france: ainda sem título (Iris Light, GB) - álbum que reúne o noisemaker japonês e o excelente grupo vanguardista inglês promete.
* Brume: ‘‘Zona Ventille’’ (Elsie &Jack, EUA/GB) e ‘‘First Encounter’’ (Alien 8, Canadá), este último em parceria com a banda AMT, sobre a qual fico devendo informações. Brume é um projeto solo do músico Christian Renou, que, utilizando ‘‘collages’’ e justaposições, cria notáveis paisagens sonoras e soundtracks abstratas com um quê de música concreta. Renou é um músico que acredita no que faz e o faz sem concessões.
* Randy Greif: ‘‘Alice in Wonderland’’ (Soleilmoon, EUA) - reedição da obra-prima de Greif inspirada no livro de Lewis Carroll. As gravações datam do início dos anos 90, e agora disponíveis numa caixa com 5 CDs.
* The Hafler Trio: CD-ROM ainda sem título definido (Soleilmoon). Já era tempo de o ‘‘patchwork’’ vanguardista do H30 merecer um CD-ROM. Item de colecionador.
* Merzbow: ‘‘Merzbox’’ (Extreme, Austrália). A maior extravagância do ano na área da música experimental: uma caixa com nada menos do que 50 (cinquenta!) CDs com toda a obra e material inédito do rei do japanese noise. Utilizando sucata, um sistema de microfones de contato, um mixer e pedais, Merzbow é um mestre dos barulhinhos e barulhões, construindo música próxima do caos. Para ouvidos treinados. Em tempo: a tiragem de ‘‘Merzbox’’ será de 1.000 cópias - ambiciosa se levamos em conta a natureza do trabalho do veterano Merzbow.