Agência EstadoBackstreet Boys: vitória da banalidade comercializada como sabonete e pasta dentalA banalidade globalizada
Ainda estamos em fevereiro, porém somente um otimismo que confinasse com a alienação poderia respaldar a esperança de que nos meses subsequentes deste último ano do século 20 assistiremos à eclosão de manifestações artísticas e culturais cuja originalidade e relevância sinalizariam novos e estimulantes rumos a ser trilhados no próximo século. Infelizmente, não se trata de uma situação circunscrita ao Brasil – país com 500 anos de tradição em chafurdar no lodo da mediocridade política e cultural –, mas uma situação que se universaliza, atingindo países que, em décadas menos anódinas do que esta que está se encerrando, foram pólos de saudável inquietação no plano das idéias e das artes. Marcam esses nossos dias de ‘‘pós-modernidade’’ (conceito-clichê cujos verdadeiros sinônimos são vacuidade e astenia) a falência de todas as vanguardas enquanto manifestações coletivas e a vitória da mediania e da banalidade tentaculares e globalizadas.
Hoje, por obra competentíssima das majors que determinam as regras da sociedade do espetáculo, temos, plenamente formado e receptivo às mercadorias que lhe são impostas, um público majoritário, uniforme e altamente manipulável que com a mesma disposição consome, por exemplo, Ricky Martin e os Backstreet Boys, Leonardo DiCaprio e os Pokémons em qualquer parte do mundo, do mesmo modo que consome sabonete ou pasta dentifrícia.
A relevância propriamente artística, cultural, deixou de ser um parâmetro para esse monstruoso público anônimo, pois o que ele deseja compulsivamente e digere avidamente é o entretenimento fácil, descomplicado e passivo. Uma comunidade global identificada pelos mesmos gostos e pela mesma recusa a tudo aquilo que, obrigando-a um autoquestionamento, possa desestabilizá-la ao colocar em xeque a fragilidade dos valores e do repertório de informações que lhe foram impingidos.
Por sua vez, a grande indústria do entretenimento, zelosa de seus interesses, cria monumentais barreiras contra qualquer coisa capaz de gerar, mediante impactos incômodos, reflexão ou dúvida sobre o real valor do que é consumido. A essas barreiras devemos creditar, em posso país (mas não apenas nele), o aviltamento da TV aberta, a decadência da música popular, a mediocridade dos livros mais vendidos e dos filmes de maior bilheteria, bem como o emburrecimento proposital de revistas de grande circulação e a perda progressiva da espessura crítica de um número cada vez maior de veículos da imprensa diária.
Nessa conjuntura, as regras implícitas são alijar da mídia qualquer expressão artística considerada ‘‘difícil’’, qualquer vestígio de novidade radical, ignorar a verdadeira criatividade e, em contrapartida, nivelar por baixo, cedendo espaços privilegiados ao superficial, irrelevante, descartável, porém de grande apelo popular e, portanto, seguramente rentável. É evidente que, num ambiente tão anêmico, de estímulos tão pobres quanto massificados e homogêneos, as manifestações artísticas inventivas tendem a tornar-se escassas e confinadas aos guetos culturais. Diante disso, sonham os utopistas com o dia em que os habitantes dos porões e becos da arte ganharão as avenidas e colocarão abaixo os bastiões da mesmice.
Mas, a julgar pelo que este fin de siécle anuncia, o que autoriza a pensar que meia dúzia de gatos-pingados será capaz de fazer uma revolução combatendo à luz da invicta mediocridade?
Tentemos, ao menos.
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