ReproduçãoAugusto Frederico Schmidt revelou nomes como Graciliano Ramos, Gilberto Freyre, Jorge Amado e Vinícius de MoraesUm poeta noturno
No dia 8 de fevereiro de 1965 – há 35 anos, portanto –, morria, vítima de um colapso, Augusto Frederico Schmidt. Ao lembrar desta data, resolvi testar o que de pronto suspeitei: perguntei a três jovens que recentemente fizeram vestibular (e foram aprovados) se eles sabiam que fora Schmidt. De dois deles ouvi a negativa; do outro, a suposição de que ‘‘Schmidt foi um poeta simbolista... catarinense, se não me engano’’. Uma pequena amostragem, concordo, mas nem por isso deixa de fornecer medida de como, num país de memória curta e pouca leitura como o nosso, um poeta de primeira grandeza (e A.F.S., admirado por Bandeira, Drummond e mesmo por seu ‘‘antípoda’’ João Cabral, certamente o foi) pode rapidamente ser esquecido. Lembremos de Augusto Frederico Schmidt, que não foi poeta simbolista nem catarinense, e sim carioca.
Nascido em 18 de abril de 1906, filho de Gustavo Schmidt e Ana de Azevedo Schmidt, Augusto Frederico – de ascendência judaica pelo lado paterno – teve uma educação esmerada, proporcionada por bons colégios na Suíça, no Rio e em Juiz de Fora. Seus primeiros trabalhos poéticos publicados datam do início dos anos 20 e aparecem num jornalzinho feito em Copacabana, ‘‘O Beira-Mar’’, e na revista ‘‘Sousa Cruz’’. Em 1922, após a morte da mãe, começa a trabalhar: balconista de loja, ajudante de caixeiro, empregado de serraria. Em 1928, publica o seu primeiro poema longo, o ‘‘Canto do Brasileiro’’, influenciado pelo Modernismo, e os três ‘‘Cantos do Liberto’’. Em 1929, aparece o seu primeiro grande livro, ‘‘Navio Perdido’’, ao qual se seguem ‘‘Pássaro Cego’’ (1930), ‘‘Desaparição da Amada’’ (1931) e sua obra mais famosa, ‘‘Canto da Noite’’ (1934) – livros que estabelecem a sua reputação de poeta noturno e melancólico.
No entanto, Schmidt – ao contrário da imagem-clichê do poeta como um sujeito meio desligado, pouco afeito às coisas práticas – era um homem extremamente prático e de tino comercial. Deu-se bem como livreiro-editor (a partir de 1930), tendo revelado nomes como Graciliano Ramos, Gilberto Freyre, Otávio de Faria, José Geraldo Vieira, Lúcio Cardoso, Marques Rebelo, Armando Fontes, Jorge Amado e Vinícius de Moraes. (O nosso poeta, sem dúvida, tinha faro para talentos.) Foi ainda um dos pioneiros dos supermercados no Brasil, tendo fundado a Cadeia de Supermercados Disco.
Também incursionou pela política e pela diplomacia: amigo de Juscelino Kubitschek, inspirou a criação da chamada Operação Pan-Americana (OPA), precursora da Aliança para o Progresso, e chefiou delegações brasileiras na assembléia-geral da ONU, em reuniões da OPA, na Conferência da Bogotá e no Conselho dos 21 Países.
Todo esse desempenho paralelo como empresário e homem de política, somado ao fato de que sua poesia – não obstante os inegáveis méritos que lhe devem ser creditados – era algo prolixa, adiposa, de versos longos (‘‘cadências bíblicas’’, disse Bandeira num poema em sua homenagem) – tudo isso contribuiu para que, num primeiro momento, os pósteros começassem a torcer o nariz frente à sua obra e, depois, essa mesma obra – prolífica – fosse, paulatinamente, ignorada. Um destino injusto para um poeta de voz própria que, mesmo computados os seus defeitos, permanece superior àqueles que, nos últimos 35 anos, os modismos colocaram em primeiro plano. É preciso revisitar Augusto Frederico Schmidt – sem preconceitos, mediante uma leitura sincrônica e revigorante. Dessa atitude os beneficiários serão os leitores de poesia e a própria poesia brasileira, que – hoje contaminada pelos poemas com feição de haicais – bem que está precisando redescobrir a exuberância hipersensível de Schmidt.



OUTRAS OBRAS
Além dos livros mencionados no texto acima, Augusto Frederico Schmidt publicou ‘‘Estrela Solitária’’ (1940), ‘‘Mar Desconhecido’’ (1942), ‘‘Poesias Escolhidas’’ (1946), ‘‘Fonte Invisível’’ ( 1949), ‘‘Mensagem aos Poetas Novos’’ (1950), ‘‘Ladainha do Mar’’ (1951), ‘‘Morelli’’ (1953), ‘‘Os Reis’’ (1953), ‘‘50 Poemas Escolhidos pelo Autor’’ (1956), ‘‘Poesias Completas’’ (1956), ‘‘Aurora Lívida’’ (1958), ‘‘Babilônia’’(1959), ‘‘Antologia Poética’’ (1962), ‘‘O Caminho do Frio’’ (1964) e ‘‘Nova Antologia Poética’’(1964).
A par de sua produção como poeta, A.F.S. foi também prosador notável, tendo colaborado assiduamente com jornais como o ‘‘Correio da Manh㒒 e ‘‘O Globo’’ e publicado uma ‘‘Antologia de Prosa’’(1964) e os livros de memórias ‘‘O Galo Branco’’(1948) e ‘‘As Florestas’’(1958), que estão por merecer reedição.



Versos de Schmidt
‘‘Não quero mais o amor,/Nem mais quero cantar a minha terra./Me perco neste mundo./Não quero mais o Brasil /Não quero mais geografia/Nem pitoresco.//Quero é perder-me no mundo/Para fugir do mundo.//As estradas são largas/As estradas se estendem/Me falta é coragem de caminhar.//Sou uma confissão fraca/Sou uma confissão triste/Quem compreenderá meu coração?’ (De ‘‘O Canto do Brasileiro Augusto Frederico Schmidt’’, 1928.)
***
‘‘(...) Ouvi a música da noite e meus ouvidos se confundiram com a minha alma/E meus ouvidos se misturaram com o mistério./Que as palavras tomem uma doçura e uma gravidade sem par/Porque eu preciso contar o que ouvi e não poderei mais esquecer./(...) Eu vi a música da noite./E nem sei se ouvi ou assisti à chegada dessa infinita harmonia, porque todos os meus sentidos ficaram unidos./Como em corpos em que almas prisioneiras penaram longamente/Como em atormentados a que a esperança tornou pacificando tudo/Assim a música da noite serenou meu desespero/E elevou o meu coração./Jamais ninguém ouviu música tão simples./Foi a vida que cantou dentro da noite/Foi a mão de Deus que se estendeu para as almas náufragas nos caminhos da morte.’ (De ‘‘Canto da Noite’’, 1934.)
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‘‘Chegará o dia do último poema/E o último poema será simples e modesto/Como se fosse um dos muitos da longa série inútil./No entanto, será o último,/Será o derradeiro,/A última canção./Sobre a voz que se foi e cantou/Será o último som interrompido, subitamente,/Quando tudo parecia indicar a vinda de outros sons,/E que eles caminhariam pela estrada/Como raparigas imaginárias enfeitadas de flores,/Formando a grande música.’ (De ‘‘O Caminho do Frio’’, 1964.)

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