‘‘La Dolce Vita’’: 40 anos de um clássico
A estátua do ‘‘Cristo Lavoratore’’ sobre Roma: prólogo de uma obra-prima‘‘Manhã de sol. Ruído de helicóptero. As ruínas do aqueduto Felice, na extrema periferia da cidade. Um ruído ciciante no céu faz voltar o olhar dos que se encontram à porta dos barracos. O ruído aproxima-se cada vez mais, a sombra de um helicóptero desenha-se no muro do aqueduto e no chão; uma grande sombra escura tremula sob o aparelho.’
O helicóptero vai se afastado na direção de Roma. No trajeto, garotos sujos e maltrapilhos, gritando e agitando os braços, habitantes dos edifícios suburbanos, operários – todos olham para o alto.
O aparelho aproxima-se da fachada da basílica de San Giovanni. ‘‘A silhueta negra que tremula sob ele revela ser uma grande estátua em madeira do Cristo Trabalhador. A enorme estátua, balouçando desse modo no vazio, passa diante das estátuas dos Apóstolos alinhadas no frontão e prossegue em direção ao centro da cidade. Um segundo helicóptero acompanha o primeiro, ora elevando-se, ora baixando.’
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Ainda que não tivesse colocado o nome do filme no título deste artigo, estou certo que qualquer cinéfilo ‘‘de carteirinha’’ reconheceria nos parágrafos acima (em que os trechos entre aspas foram extraídos do roteiro original) as sequências iniciais de um do maiores clássicos da história do cinema: ‘‘A Doce Vida’’, de Federico Fellini (1920-1993). Realizado entre o verão de 1958 e o outono de 1959, o filme estreou em Roma em fevereiro de 1960, causando polêmicas políticas e religiosas. Ainda que a voz isolada do sociólogo jesuíta John Navone o classificasse como ‘‘o filme mais cristão do cinema moderno’’, o Vaticano – após declarar que ‘‘A Doce Vida’’ deveria se chamar ‘‘A Amarga Vida’’ – acabou por condená-lo oficialmente. A essa decisão fizeram coro políticos conservadores e padres escandalizados. Nada disso impediu, antes contribuiu para que ‘‘La Dolce Vita’’ fosse sucesso de bilheteria e ganhasse um merecido Oscar.
Com argumento e roteiro assinados por Fellini, Tulio Pinelli e Ennio Flaiano, fotografia de Otello Martelli, cenografia e figurinos de Piero Gherardi e música de Nino Rota, ‘‘A Doce Vida’’ é o sétimo título da filmografia de Fellini, seguindo-se a ‘‘La Strada’’ e ‘‘Notti di Cabiria’’ e precedendo a outro de seus grandes êxitos, ‘‘8 1/2’’. Mais do que um retrato da sociedade romana do pós-guerra, da efervescência boêmia da mais famosa rua de Roma, a Via Veneto (recriada no Teatro Cinco da Cinecitá) e das relações hipócritas entre catolicismo e Estado, é um filme sobre o vazio – moral e existencial – e, sob este aspecto, faz jus ao título alternativo que lhe deu o Vaticano. Não há, de fato, nada de doce na vida mostrada por Fellini. O vazio contamina e é a marca de quase todos os personagens: o jornalista de origem humilde Marcello Rubini (interpretado por Marcello Mastroianni), entre fascinado e enojado com a alta sociedade que passa a frequentar; Sylvia (Anita Ekberg, numa atuação memorável), Maddalena (Anouk Aimée), Emma (Yvone Fourneaux), Paparazzo (o protótipo do fotógrafo pouco escrupuloso, vivido por Walter Santesso), bem como os nobres, as prostitutas, os travestis e a gente da imprensa envolvidos na história. Mas não é justamente esse vazio (e o desespero que dele advém) um dos traços mais característicos da nossa época e uma das razões pelas quais ‘‘La Dolce Vita’’, quarenta anos após a sua realização, ainda tem tanto a dizer?