ReproduçãoCharles Ogle interpretou Frankenstein na primeira adaptação para o cinemaArquivo FolhaBoris Karloff, o Frankenstein mais famosoFrankenstein: 90 anos na tela
Escrito em junho de 1816, durante uma estada de sua autora (então com 19 anos) na Villa Diodati, próximo a Genebra (Suíça), e publicado originalmente em 1818, ‘‘Frankenstein ou o Prometeu Moderno’’ foi adaptado para o cinema pela primeira vez em 1910, num curta-metragem mudo, com 16 minutos de duração, dirigido por J. Searlee Dawley e produzido pela companhia de Thomas Edison (1). Charles Ogle fez o papel do monstro, que no final do filme simplesmente desaparecia no ar, como um espírito, derrotado pelo amor de Victor Frankenstein e sua noiva. Vieram depois, ainda no período mudo, ‘‘Life Without a Soul’’ (1915), de Joseph W. Smiley, que disfarçou a história e mudou os nomes dos personagens para não ter que pagar direitos autorais (2), e ‘‘Il Monstro di Frankenstein’’, produção italiana de 1920.
Em 1931, a Universal Studios, motivada pelo sucesso obtido naquele ano por ‘‘Drácula’’ (de Tod Browning, com Bela Lugosi no papel-título), planejou uma versão do romance de Mary Shelley que seria dirigida por Robert Florey, com Lugosi no papel do monstro. O filme foi cancelado após umas poucas cenas terem sido rodadas. Então, a Universal chamou James Whale (3) para tocar o projeto e o resultado, como se sabe, é a mais célebre das adaptações de ‘‘Frankenstein’’, com Boris Karloff (maquiado por Jack B. Pierce) interpretando a Criatura. Karloff repetiria o papel no também excelente ‘‘A Noiva de Frankenstein’’ (1935), dirigido por Whale, e em ‘‘O Filho de Frankenstein’’ (1939), de Rowland Lee. Seguiram-se, na mesma produtora, filmes menores como ‘‘O Fantasma de Frankenstein’’ (1941), de Erle C. Kenton, ‘‘Frankenstein Encontra o Lobisomem’’ (1943), de Roy William Neil, ‘‘House of Frankenstein’’ (1944) e ‘‘House of Dracula’’ (1945), de E.C. Kenton, e – demonstrando que, pelo menos na Universal, o personagem deixara de ser levado a sério – a comédia ‘‘Abbott e Costello Encontram Frankenstein’’ (1946), de Charles T. Barton (4).
Nos anos 50/60, quando o livro de Mary Shelley já caíra em domínio público, o pobre doutor Frankenstein e sua criatura tornaram-se personagens de filmes ‘‘B’’ e paródias malfeitas – coisas como ‘‘Eu Fui um Frankenstein Adolescente’’ (1958), de Herbert L. Strocke, e ‘‘Furankenshutain Tai Baragon’’, produção japonesa onde Frankenstein (‘‘Furankenshutain’’) – ou melhor, a criação dele – aparece como um monstro do tamanho de Godzilla, lutando contra outros monstros igualmente gigantescos. Disposta a restaurar a dignidade do personagem, a produtora inglesa Hammer realiza uma bem-sucedida série de seis longas, que inclui ‘‘A Maldição de Frankenstein’’ (1957), ‘‘A Vingança de Frankenstein’’ (1958), ‘‘O Monstro de Frankenstein’’ (também de 58), ‘‘E Frankenstein Criou a Mulher’’ (1966), ‘‘Frankenstein Tem que Ser Destruído’’ (1969) e ‘‘Frankenstein and the Monster from Hell’’ (5).
Nos anos 70/80, novas sátiras – como o ‘‘Frankenstein de Andy Warhol’’ (1973), dirigido por Paul Morrisey, e ‘‘O Jovem Frankenstein’’ (1974), de Mel Brooks – e revisões da célebre história – caso da minissérie de TV (apresentada nos cinemas em versão compacta) ‘‘A Verdadeira História de Frankenstein’’ (1973), de Jack Smight, e ‘‘A Prometida’’ (1985), de Franck Roddan. Nos anos 90, apenas dois filmes merecem menção: o interessante ‘‘Frankenstein – O Monstro das Trevas’’ (1990), de Roger Corman, que misturou tudo – Victor Frankenstein, a Criatura, Mary Shelley, o marido dela e Lord Byron – numa trama com elementos de ficção científica, e o honesto e bem produzido ‘‘Frankenstein de Mary Shelley’’ (1994), dirigido por Kenneth Branagh e estrelado por Robert De Niro.
Para finalizar, uma observação que parece-me pertinente: nenhum dos filmes de Frankenstein realizados até hoje é realmente fiel ao livro de Mary Shelley, entre outros motivos porque a autora nunca descreveu o nascimento do monstro, nunca caracterizou Victor Frankenstein – pouco mais do que um adolescente – como um homem maduro e muito menos lhe deu o título de barão. Quando à criatura, nunca teve, no livro, dificuldade para articular as palavras. Seja como for, outras adaptações certamente aparecerão e talvez alguma delas consiga lembrar desses ‘‘pequenos’’ detalhes.
(1) Há dois anos descobri, por meio de um anúncio na revista americana ‘‘Psychotronic’’, a existência deste filme em vídeo, comercializado juntamente com um livro de 150 páginas pela Incredibly Strange Filmworks – P.O. Box 245, Dept. PV, Jamestown, MO 65046. Embora o vídeo tenha apenas 15 minutos de duração – e não 16 –, a empresa garante tratar-se da versão completa.
(2) O grande Friedrich Wilhelm Murnau recorreu ao mesmo expediente em 1922, quando realizou o clássico ‘‘Nosferatu’’, baseado no romance ‘‘Drácula’’, de Bram Stoker.
(3) Diretor cujos últimos dias de vida foram retratados no sensível ‘‘Deuses e Monstros’’/1998, de Bill Condon.
(4) Em ‘‘O Fantasma ...’’, o papel do monstro coube a Lon Chaney Jr.; em ‘‘Frankenstein Encontra o Lobisomem’’, a Bela Lugosi; e em ‘‘House of Frankenstein’’, ‘‘House of Dracula’’ e ‘‘Abbott e Costello ...’’, a Glenn Strange.
(5) Todos os filmes da série trazem Peter Cushing no papel do barão Victor Frankenstein. Terence Fisher, o melhor diretor da Hammer, assinou o 1º, o 2º o 4º e o 5º filme.