Suicide: um duo à frente do seu tempo
ReproduçãoAlan Vega e Martin Vega: música experimentalInfluência confessa de bandas tão diversas entre si como Soft Cell, Depeche Mode, Sisters of Mercy e Jesus and Mary Chain e admirado por artistas e grupos como Nick Cave, Pulp, Jason Pierce (do Spiritualized), Julian Cope, Bobby Gillespie e Stereolab, o Suicide foi formado em Nova York em 1970 por um artista plástico especializado em esculturas em néon, Alan Vega, que encarregou-se dos vocais, e um músico de free-jazz (ex-integrante do grupo Reverend B), Martin Rev, que pilotava os teclados. Após a performance de estréia, que contou com a participação de um guitarrista (dispensado logo em seguida), o Suicide desenvolveu o restante de sua carreira como um duo de synth-pop (o primeiro de que se tem notícia). Uma carreira nada fácil, marcada pela incompreensão do público da década de 70 e, por consequência, pelo insucesso comercial, o que levou a dupla a longos períodos de ‘‘hibernação’’.
Tendo interrompido as suas apresentações em 1973, Vega & Rev reaparecem em 1976, no legendário CBGB, o templo da cena punk nova-iorquina que revelou artistas como Patti Smith e os Ramones. O primeiro álbum, ‘‘Suicide’’, sairia no ano seguinte, editado pelo pequeno selo Red Star (comandado por Martin Thau, ex-manager dos New York Dolls) e trazendo como destaque a faixa ‘‘Frankie Teardrop’’- música representativa do estilo da banda, em que aos teclados ‘‘mântricos’’ e pulsantes de Rev se juntava o vocal cheio de ecos de Vega, que produzia uma espécie de rockabilly abastardado e fantasmagórico.
Em 78, o Suicide tentou conquistar a atenção dos punks europeus e atuou como banda de abertura dos shows do Clash e de Elvis Costello no Velho Continente. A reação das platéias foi de hostilidade (até porque a música de Vega & Rev, eletrônica, estranha, afeita ao experimentalismo, não se encaixava no cânone do punk rock). Vega teve o seu nariz quebrado no palco em Crawley, Inglaterra. Em Bruxelas, uma performance de ‘‘Frankie Teardrop’’ (cuja letra conta a história de um sujeito que assassina sua mulher e seu filhinho e depois se mata) provocou uma balbúrdia como raramente se viu naquela capital. (O registro dessa apresentação tumultuada está no mini-álbum ‘‘24 Minutes Over Brussels’’, lançado em 1980).
As reações negativas não desanimaram a dupla, que continuou fazendo shows e em 80 lançou o seu segundo disco de estúdio, ‘‘Alan Vega/Martin Rev - Suicide’’, produzido por Ric Ocasek (líder da banda The Cars). O álbum (que chegou a ser editado no Brasil) foi bastante elogiado pela crítica e trazia algumas faixas mais acessíveis do que as do disco anterior (‘‘Shadazz’’ e ‘‘Sweetheart’’ são dois bons exemplos), mas, mesmo assim, vendeu mal. Vega e Rev decidem, então, partir para carreiras-solo, no que o primeiro foi melhor sucedido, tento lançado entre 1980 e 1997 sete álbuns: ‘‘Alan Vega’’ (1980) - cuja faixa ‘‘Juke Box Babe’’ chegou a frequentar as paradas de sucesso francesas - , ‘‘Collision Drive’’ (1981) - que incluía uma versão de ‘‘Be Bop a Lula’’ cantada sobre um riff do tema da antiga série de TV ‘‘Peter Gunn’’, composto por Henry Mancini -, ‘‘Saturn Strip’’ (1983) - que emplacou uma releitura disco de ‘‘Every I’s a Winner’’, do grupo Hot Chocolate -, ‘‘Just a Million Dreams’’ (1985), ‘‘Deuce Avenue’’ (1990), ‘‘New Raceion’’ (1993, ano em que também lançou o seu livro ‘‘Cripple Nation’’ editado por Henry Rollins, o líder da Rollins Band), e ‘‘Dujang Prang’’ (1997) - um álbum dark, caracterizado por ruídos mecânicos e vocais torturados (certamente o menos comercial dos seus discos solo).
Em 1988, o Suicide fez uma breve reaparição em dois shows em Londres e em 89 lançou o seu último álbum, ‘‘A Way of Life’’. Em março de 98, outro rápido retorno para quatro apresentações no clube londrino Garage, tendo como banda convidada o high tech Parasonic e a participação de alguns dos mais badalados DJs da Inglaterra. A realização dos shows assumiu o caráter de celebração e de reconhecimento, por parte do cenário eletrônico britânico, ao legado do proto-eletrônico e criativo Suicide.
Pois bem ... para aqueles que não conhecem e ficaram curiosos em relação à dupla formada por Vega e Rev, vai aqui dica: acabam de ser relançados pela Mute norte-americana, em CDs duplos, os álbuns ‘‘Suicide’’ e ‘‘Alan Vega/Martin Rev’’. O primeiro disco de cada título traz as gravações originais remasterizadas; o segundo, a título de bônus, registros de apresentações ao vivo realizadas em 1978. Acesse o site da Mute (http://www.mutelibtech.com/mute), faça o pedido e descubra como, após mais de 20 anos, o Suicide, além de vigoroso, continua atual.
E-mail: [email protected]
Hoje, excepcionalmente, publicamos a coluna de Wilmar Klein nesta página.

mockup