Wilmar Klein
O que é ambient industrial?
Em relação à música contemporânea que pouca gente ouve, convém ser didático. Ambient, grosso modo, é toda música que visa a criação de uma atmosfera, um espaço para pensar, uma paisagem sonora. A primeira composição do gênero, Music for Airports, de Brian Eno, data de 1978. Segundo o compositor escreveu na época, ambient music deve ser capaz de acomodar vários níveis de atenção auditiva sem concentrar-se em nenhum em particular; o resultado tanto pode ser ignorável quanto interessante. Não deve, entretanto, ser confundido com modalidades banais de música dispersiva, como, por exemplo, easy listening orquestral ou new age.
Industrial, por sua vez, é o tipo de música que incorpora o ruído, os sons urbanos, entre outros elementos extramusicais. Tributário, sob certos aspectos, da musique concrSte (que surgiu no final dos anos 40, na França, tendo como precursores Pierre Schaffer e Pierre Henry), sua estética foi definida, primeiramente, pelas gravações da banda inglesa Throbbing Gristle datadas dos anos 70. O TG dissolveu-se em 1981, porém várias bandas seguiram a sua proposta. O grupo alemão Einsturzende Neubauten (liderado por Blixa Bargeld) ilustrou bem, ao longo dos anos 80, alguns procedimentos industriais: embora não dispensando instrumentos convencionais como a guitarra e o baixo, privilegiou a percussão produzida a partir de sucata e frequentemente recorreu à colagem de tapes.
Ambient industrial, obviamente, é um híbrido dos dois gêneros acima mencionados. Segundo o crítico britânico Peter Werner, uma composição típica de ambient industrial agregaria dissonâncias, ruídos, frequências extremamente baixas, vozes e sons distorcidos, ritmos percussivos, podendo também incorporar gongos, ruídos de máquinas e samples diversos. Os últimos discos do Throbbing Gristle, Journey Through a Body e In the Shadow of the Sun, encaixam-se nesta categoria, bem como boa parte dos trabalhos de bandas altamente inventivas (e por isso mesmo inéditas no Brasil) como Nocturnal Emissions, Lustmord, Zoviet France, Hafler Trio, Morphogenesis, Coil, CTI, Controlled Bleeding, Contrastate, Deutsch Nepal e PGR.
Como todo gênero que evolui, o ambient industrial desdobrou-se em subgêneros, dentre os quais merecem atenção os seguintes:
Ambient noise - Volta-se à construção de noisescapes que, para os ouvintes menos familiarizados com trabalhos experimentais, soarão como antimúsica. No entanto, um audição atenta e aberta revelará composições altamente elaboradas, de rica e complexa abstração. Exemplos de artistas e bandas que desenvolvem obras nessa linha: Arecibo (pseudônimo com o qual o inglês Brian Williams, do Lustmord, assinou o criativo álbum - lançado em 1995 pelo selo Atmosphere, da Dark Vinyl Records - Trans Plutonium Transmissions, que utiliza sons de radiotelescópio gravados pela NASA), O japonês Aube (Akitumi Nakajima) - que, entre outras experiências de vanguarda, transformou ondas cerebrais em sinais audíveis com os quais elaborou a obra Evocation(registrada no CD homônimo, lançado em 98), Daniel Menche, NON, Arcane Device e PGR (particularmente as parcerias com AMK e o rei do japanese noise, o veterano Merzbow).
Isolacionismo - Termo popularizado pela revista brtânica The Wire, serve para designar trabalhos de ambient industrial caracterizados pelo uso de eletrônica sofisticada e uma ambiência espacial, sombria, como os do alemão Thomas Köner (de quem recomendo os álbuns Teimo, Permafrost e Kaamos, todos lançados pela gravadora Mille Plateaux).
Dark ambient - Também conhecido como darkwave e ambient noir, é uma combinação de elementos de ambient e industrial com uma orientação ainda mais dark, gótica, do que a dos isolacionistas. Exemplos de darkwavers: a banda macedônia Kismet, o pioneiro da música eletrônica húngara Lászlo Hortobágyi (cujo excelente CD Summa Technologiae, de ambient etnogótico, ainda pode ser encontrado no catálogo da gravadora norte-americana Tone Casualties: www.tonecasualties.com), John Hassell e os grupos Raison DEtre, Black Tape for a Blue Girl e Love Spirals Downwards.
Para conhecer mais sobre ambient industrial e localizar os artistas e discos que mencionei, sugiro uma visita aos sites dos selos Cold Meat Industry, Complacency, Dark Vinyl, Dorobo, Iris Light, Minus Habens, Projekt, Silent Records, Soleilmoon e World Serpent. Para chegar até eles sem precisar digitar os vários endereços, digite apenas www.brainwashed.com e depois clique, na sequência, Music, Axis Archive, ESTWeb Index, Related Links e Labels. Um portal de acesso para algumas das mais climáticas trilhas musicais (e antimusicais) deste final de milênio.





